Mesmo sendo formado na área de humanas e tendo que trabalhar com o oriente, eu – e provavelmente quase todos os brasileiros – carecemos do conhecimento sobre a história que formou as grandes nações do leste, salvo talvez a China e o Japão. Aliado a isso, a nossa visão eurocêntrica do mundo, avaliando as interações sociais de diversas épocas desses povos, nos remete a arquétipos e estruturas hierárquicas típicas de certas áreas na Europa, indo desde a idade antiga até a contemporânea, criando generalizações grosseiras e prestando um enorme desfavor à cultura oriental. Dito isso, tudo o que eu sei sobre a península da coreia parte da invasão japonesa de 1910, que tem seu término com o fim da 2a Guerra Mundial (1945), que, por sua vez, cria as condições para a primeira disputa da Guerra Fria entre a URSS e os EUA com a Guerra das Coreias (1950-53), que resulta mais ou menos na dinâmica atual da área em questão, com a Coreia do Sul e a Coreia do Norte separadas por diversos obstáculos, sejam eles culturais ou não.

E eis que a série Kingdom cai no meu colo e após assistir ao trailer a primeira coisa que pensei foi “legal… uma série coreana medieval de zumbis”, corroborando todas as generalizações possíveis já ditas no parágrafo anterior. Contudo, ao me dedicar com afinco aos seus 6 episódios, extraí dessa experiência elementos para além desses rótulos imbecis. Diferente da grande maioria de filmes sobre zumbis, que carregam um pretexto batido e/ou merda para colocar mortos-vivos a disposição, Kingdom os encaixa no enredo com muita naturalidade, servindo para ilustrar aspectos políticos e sociais da obra. Caso não me falhe a memória, desde o longa “Cargo” (indicado em nosso Garimpo NETFLIX) eu não assistia algo interessante em que os zumbis servem apenas como um pano de fundo.

Essencialmente temos uma luta pelo poder na península coreana, com o rei sumido há 10 dias por contrair varíola e seu conselheiro de Estado, Cho Hak-ju, usando sua influência contra o herdeiro legítimo ao trono, o príncipe Chang. Há aqui um jogo peculiar, porém familiar, em relação à disputa. O conselheiro, do clã Haewon Cho – que não é o mesmo do rei -, tem duas peças bem posicionadas nesse tabuleiro. Seu filho é o chefe da guarda real e sua filha está casada com o rei e está buchuda em estágio avançado. Já o príncipe Chang é um homem feito, mais velho do que a própria esposa de seu pai, mas é filho de um concubina.

Caso ela dê a luz a um filho homem, Chang está fudido. Além de perder o trono, fatalmente perderá a vida. Por outro lado, caso o rei morra antes da esposa dar a luz, todo o clã Haewon Cho ficará em terrível situação, com o príncipe assumindo o controle de todos os aparatos do Estado. Agora, se você adicionar à essa receita um rei com varíola – que pra época era sentença de morte – e uma tentativa de golpe, temos uma situação política muito instigante de acompanhar. E onde entram os zumbis na equação? Bem, não quero dar muitos spoilers para não despir de surpresas a série, mas o rei precisa continuar “vivo”, né?

No mais, a velha e “boa” lógica da realeza vivendo no luxo e a população no lixo se faz presente numa trama política que fica de lado assim que começa a despirocar o surto zumbi, o que acontece bem rápido, mas ainda assim temos uma conclusão levemente satisfatória para o enredo, com lacunas que os 6 próximos episódios que estão em produção provavelmente responderão. Há um senso de urgência muito semelhante ao de “Game of Thrones”, onde existe um mal maior devastando a nação enquanto grupos políticos disputam o poder. Porém, preciso colocar em evidência a qualidade da produção que permitiu uma ótima ambientação de época, aumentando a imersão das intrigas políticas, e, ao mesmo tempo, de terror, o que é dificílimo de se fazer (talvez tirando a Londres vitoriana). O que vai permitir essa alternância entre o terror e o drama é a jogada com o lore dos zumbis.

Aqui nossos amigos mortos-vivos não são letárgicos, lembrando muito outro ótimo filme sul-coreano do gênero, “Invasão Zumbi“, e se escondem da luz do sol, amontoando-se em grupos em qualquer buraco escuro. Essa dinâmica entre um período diurno, com um momento para resolver como lidar com os zumbis e desenrolar as intrigas políticas, e o período noturno, quando as regras sociais desaparecem e os zumbis se tornam uma força avassaladora, foi revigorante e não deixou a série criar barriga, mantendo um ritmo constante e agradável. Além disso, esses momentos noturnos proporcionaram cenas de cagaço muito bem construídas, com a utilização da luz de forma bem original, e claro, cenas de ação de uma violência gráfica absurda em uma época que as armas brancas dominavam. Imagina a satisfação de ver ninjas samurais (eu sei que isso é coisa do Japão, tá?) degolando e esquartejando zumbis das formas mais criativas possíveis e com as mais variadas armas. Foi um verdadeiro deleite aos olhos.

A única ressalva que faço são as cenas das pessoas comendo. PUTA QUIU PARIU, brother. Imagina que você criou um grupo de 30 pessoas alimentadas diretamente por intravenosas por 20 anos sem qualquer instrução de etiqueta ou referência visual, para um belo dia colocar um banquete em frente a elas e falar “bom apetite”. Não é possível que seres humanos comam como os da série e eu estou longe de ser um cara educado à mesa. Era de causar ânsia de vômito e de querer esmurrar a cara de cada um (nota do editor: para que se estabeleça como Ryan Fields é um cara chato com comida, ele tem nojo e ânsia de vômito com qualquer tipo de sopa ou alimento com caldo, menos feijão, então podemos todos ignorar esse parágrafo).

Como resultado final, Kingdom apresenta muita competência técnica na fotografia, direção e atuação, além de ter um roteiro azeitado, com intrigas políticas e terror na medida certa, o que a coloca no hall das grandes séries da NETFLIX. Certamente uma das melhores surpresas de 2019.

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