Quando a gente chegou ao ano 2000 nada aconteceu. Jesus não veio, o mundo não acabou, não fizemos contato com alienígenas e tampouco as máquinas tomaram conta do planeta. O mais perto que chegamos de qualquer dessas coisas foi o advento dos Massively Multiplayer Online Role-Playing Games (ou MMORPG pros intronizados) que se tornou a nova cocaína dos millenials. Nesses jogos, uma quantidade assombrosa de nerds se reúne em grupos para basicamente matar uns aos outros, pegar tesouros e viver aventuras que podem durar vários anos. Dentre todos esses, no entanto, houve um que tornou-se emblemático, na virada do milênio, como o bastião de modernidade da era da computação. Chamado não coincidentemente de Second Life, o jogo é uma simulação de vida em uma simulação de mundo. Lá você cria um personagem e passa a fazer as mesmas coisas que faria aqui: trabalha, estuda, conhece gente, vai a shows, come alguém.

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Quando de seu lançamento, em 2003, o alarde era tão grande, a quantidade de gente jogando era tão surpreendente e o que as pessoas estavam dispostas a fazer para terem uma “Segunda Vida” era tão estapafúrdio que as revistas especializadas falavam que o dinheiro virtual existente dentro do mundo virtual (Linden Dollar) viria a substituir o dinheiro real no mundo real (já ouviu esse papo antes?) e muita gente caiu nessa. Conheço pessoalmente um camarada que vendeu tudo menos a casa e a roupa do corpo pra investir numa loja dentro do jogo, com a certeza de que jamais precisaria trabalhar novamente sob esse céu-de-meu-deus. Ele continua tendo a casa. Hoje, 15 anos depois ninguém joga essa merda e a geração atual nunca ouviu falar nisso, mas a premissa de que um dia o mundo virtual substituirá o mundo real está presente desde o clássico “Matrix” (presente em nossos Top 10 – Ficção Científica e Top 10 – Filmes de Herói) até o recente Jogador Nº 1.

Tallulah Haddon in Kiss Me First (2018)

Kiss me First, lançamento de sexta-feira da Netflix, fala exatamente disso, de novo, mas temperado com a nova coqueluche do mundo midiático: série de psicopata. Aqui, Leila (Tallulah Haddon numa atuação sutil mas interessante, expressando com olhares e expressões faciais a evolução radical do personagem) é uma nerdzinha viciada em um jogo de realidade virtual chamado Azana World. Tendo perdido a mãe para uma doença dolorosa, Leila (Shadowfax dentro do jogo) se envolve com um estranho grupo de jogadores que tem acesso privilegiado a seções que não deveriam existir dentro do mapa de Azana. O grupo, chamado Red Pill, é composto apenas por jovens visivelmente fudidos das idéias e liderado por um misterioso personagem chamado Adrian, que parece ter influência em certos controles do jogo. Leila é convidada a fazer parte do grupo por uma gatíssima morena junkie dançarina de rave chamada Mania que começa a dar em cima dela dentro e fora do jogo, caindo de para-quedas em sua vida e fudendo-lhe com o pouco de paz que lhe restava.

Simona Brown in Kiss Me First (2018)

Leila rapidamente desconfia que algo não está certo quando tais jogadores começam a morrer de forma misteriosa, expondo a história de suas vidas pessoais e todos os podres que as cercam. A série toca em todos os problemas que você pode imaginar que estejam ligado ao mundo moderno das internets e não internets: drogas, desequilíbrios emocionais, abuso, pedofilia, identidade de gênero (ou o tabu que ainda cerca o assunto), falta de perspectiva social. Não chega a ir muito fundo em nenhum desses assuntos, mas usa como gancho pra contar a história de muitos daqueles camaradas que você conhece apenas dentro dos jogos mas sabe nada sobre suas vidas pessoais.

A série é inteligente e o enredo – baseado no livro homônimo de Lottie Moggach – é muito bem elaborado. É uma mistura de ficção cientifica com suspense, alternando seqüências na vida real e no mundo virtual de Azana. O design de tal mundo e de seus personagens – todos criados como uma versão idealizada do jogador no mundo real, como todo avatar de jogo online – é muito bonito e convence como universo online. Os personagens e suas histórias pessoais são o que conectam toda a narrativa e todos são interessantes e bem explorados, dando à série a sensação de ir bastante mais fundo e de ser muito mais longa do que de fato é. E essa, pra mim, foi uma questão em que fiquei dividido.

Kiss Me First (2018)

Cada um dos 6 episódios tem pouco menos de uma hora e a sensação é de que são longa-metragens de duas horas. Não que haja uma quantidade enorme de informação em cada episódio, mas as cenas são lentas e a narrativa lembra cinema europeu (até porque o é – inglês, mais especificamente) com muitas sequências que estão ali apenas para nos sugar pra dentro daquele universo estético. E consegue! A questão é que é um universo sufocante, e torna a história mais pesada do que de fato é. Talvez isso seja, até mesmo, uma qualidade, mas eu senti a necessidade de fazer várias pausas estratégicas pra espairecer. Talvez seja para um estado de espírito específico, ou pra um fim de semana em particular, mas, apesar de a história ter me agradado, não foi prazeroso assisti-la em maratona. Ah, e o útimo episódio… Sem dar spoilers, digamos que eu espero que o primeiro episódio da segunda temporada seja melhor que o último da primeira. Mas ainda assim eu espero que haja uma segunda temporada.

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