Em “Microfísica do Poder”, Foucault discorre toda sua filosofia sobre as relações de poder – afinal, segundo esse cara espetacular, o poder não existe, mas, sim, sua prática e relações. Mudada a estrutura desse aparato, muda-se quem “detem” poder ou não – pra falar direitinho, quem o exerce. Queridos leitores, não se entediem com minha tara pela filosofia e áreas correlacionadas; falo isso com um objetivo. A modo grosseiríssimo, e perdoem-me os discípulos de Foucault, o seriado La Casa de Papel põe seus estudos à prova. Poder: volátil e, ainda assim, tão decisivo. Dentro de um assalto de banco onde a figura de autoridade oscila entre um personagem e outro diante das pressões externas e internas, as relações de poder sofreriam abalos inevitáveis.

Sintetizando a primeira temporada em algumas frases, eis o que aconteceu: um bando de metido a anarcocapitalista (e geral aí pagando pau pra esses “revolucionários” que fazem parte de um dos grupos mais desprezados ideologicamente) decide invadir a Casa da Moeda da Espanha e, por meio de um plano cheio de detalhes e reviravoltas, mantém 50 funcionários como reféns no lugar e obrigando-os a produzirem seu próprio dinheiro. Segundo o Professor (Álvaro Morte), líder do plano todo, eles “não vão roubar ninguém pois estarão fabricando o próprio dinheiro”. Dá-lhe romantização.

O bonde do anarcocapitalismo lutando pela emancipação do Estado sucateado através de armas e… dinheiro. E viva o capital!

Se na primeira parte o telespectador sofria arritmias cardíacas devido a série de plot twists da história, ainda se acostumando com o formato dramático (e bota drama nisso) e de suspense, na segunda já sabemos qual é a pegada da parada. Mas a segunda parte também sabe que já sabemos e, nesse looping de “eu sei que você sabe que eu sei que você sabe”, rola ladeira a baixo de toda aquela ascensão glamourosa construída anteriormente. E, veja bem, não digo isso de maneira crítica, tentando dizer que a série caiu qualitativamente; continua uma excelente produção em termos de entretenimento e engajamento, características fundamentais para uma série que se divide em mais de 20 episódios no total. Na verdade, acho ótimo esse ápice e queda na construção da história. O início do fim se baseia nas reações de todos ali, numa panela de pressão diante de um plano que se mostra suscetível a deslizes e improvisos que, por um fio, não fodem com geral.

Tirando a ferramenta dramática que me deixa incomodada, mas que é de se acostumar, a série traz um cotidiano dentro da ficção bem interessante – e chegou a hora de eu falar de homem e mulé, sim. Os personagens masculinos centrais são de dar RANÇO: Berlín (Pedro Alonso) é um fascistinha (e olha que eu não sou de usar esse termo banalmente não), Professor, um manipulador. Arturito (Enrique Arce)… não sei nem por onde começar, Coronel Prieto (Juan Fernández) nem é gente e assim vai. Todos eles conseguem, seja por um breve instante ou insistentemente, falar umas merdas de revirar os olhos. Desde clássicos como “ela deve tá no período menstrual pra tá putinha” até o discurso benevolente de “venha que vou cuidar de você, pobre donzela indefesa”. Asco.

Inspetora Raquel, coitada, tem que aturar esse velho nojento falando merda o tempo todo…

Falando em gente chata, desculpem, mas a Tóquio (Úrsula Corberó), por maior que seja seu sex appeal (parabéns, dona Úrsula), é insuportável. É impulsiva, cruel, não consegue falar uma coisa sem passar raiva e ferrar com todo mundo, salvo as vezes (não são todas) que pensa no seu amorzito Rio (Miguel Herrán). Por outro lado, para compensar o total desprazer que é ver essa personagem existindo, temos a rainha da porra toda Nairobi (Alba Flores) que conquista tanto a ponto de esquecermos totalmente as questões politicamente incorretas de gostar de uma sequestradora e ladra. 

Minha principal crítica à série, contudo, não é sua história aí cheia de falhas no quesito “revolucionário”, pois neste eu sou realmente uma problematizadora histórica inevitavelmente fazendo uma análise muito além da necessária. O real problema foi, na minha concepção, o uso ABUSIVO de recursos narrativos e audiovisuais de dramalhão espanhol. Aparentemente a série não faz nenhum esforço para despir-se do estereótipo que as produções espanhóis carregam do exagero e, bem, isso me incomoda na medida que interfere no meu próprio envolvimento por ficar com raiva automaticamente. Fora isso, trata-se de uma criação inegavelmente inesperada e bem sucedida – não à toa causou um alvoroço nas redes sociais, viralizando com facilidade.

“Que comece o matriarcado!” <3

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