La Casa de Papel fechou sua história na segunda parte e isso é indiscutível. O anúncio de que produziriam uma continuação foi não só surpreendente, do ponto de vista de narrativa, como desnecessário; mas, do ponto de vista empresarial, é claro que fez sentido. Afinal, a série foi uma febre em seu lançamento em 2017 (tendo sido resenhada por mim aqui), e, em assim sendo, os criadores não deixariam de inventar ainda mais história e dar continuidade, literalmente, aos lucros. Dessa vez a história mantem os personagens investindo em esquemas de roubo aos quais o grupo já milionário volta por outros motivos agora.

Se na minha crítica anterior optei por passar batido de falar da tentativa da história de vender um discurso revolucionário, justificando, dentre outros, que o grupo roubava “dinheiro fabricado” e não da população (como se no final esse dinheiro não afetasse a inflação nacional e zzzzzz), dessa vez não terei como escapar disso. Afinal, na terceira parte a série se apropria com intensidade da prerrogativa revolucionária de “rebelião contra o sistema”, com a população espanhola fictícia apoiando as figuras por trás das máscaras de Dali que cometeram o roubo na Casa da Moeda. A motivação para um novo roubo é a captura de Rio, que, por um deslize, revela sua localização e é capturado pela polícia e torturado para que revele onde estão os demais.

Uma volta em alto estilo.

Vejam bem: pouco me importa a narrativa contar um roubo bem-sucedido e mostrar como algo que soluciona a vida daquelas pessoas. Não estou aqui pra fazer juízo de valor e ditar certo e errado – e também, no final das contas, o telespectador quer saber é do entretenimento que a parada gerou. O problema real pra mim é a distorção completa de uma história que desde o início é claramente marcada por motivações individuais, de melhoria de vida de um determinado grupo, sem compromisso em defender bandeira de mudança social ou articular qualquer rompimento com o sistema, sem projeto de qualquer porra. Aí, a trama incorpora na CARA DURA nessa continuação os caras que roubaram a Casa da Moeda sendo semblantes revolucionários a nível mundial, a ponto de a população auxiliar para que esse segundo roubo dê certo. Menos, né, mores? Seus anarcocapitalistazinhos de merda.

Passado esse momento que eu tirei isso do eu coração, vamos ao restante dessa terceira parte. Iniciamos sabendo do que aconteceu com os personagens após o bem-sucedido roubo; suas novas vidas com eles espalhados pelo mundo e felizes para sempre. Até que, pra não quebrar a tradição, a Tóquio faz merda e, em sequência, o Rio faz merda e é pego pela polícia. O grupo se reúne com o objetivo de resgatá-lo: Nairóbi, Helsinki, Estocolmo (Mónica) e Denver – que agora tem um filhinho muito fofo -, Tóquio, Lisboa (nome adotado por Raquel) e Professor se reúnem. Há novos integrantes na trupe também: o BFF de Berlim, Palermo, Bogotá e Marselha, dois personagens que surgiram do nada sem explicações mesmo.

Denver nessa temporado vem emocionado pela paternidade.

A série mantem a fórmula do dramalhão característico e das reviravoltas e emoções consequentes à elas. Confesso que não funciona tanto quanto antes, acredito que pelo fato de em algum momento percebemos o quão desnecessário é ter tido essa terceira parte feita. Fora a isso, a história como um todo é forçada, o que retoma ao descrito anteriormente. Se tem algo de bom a ser dito é o papel das mulheres da série, com destaque, é claro, pra Nairóbi, que, se antes já deu pistas de ser a melhor personagem da série, agora confirma essa suspeita. Há a inserção de um discurso feminista uma hora ou outra e uns esculachos muito bem dados nessa verdadeira manada de chauvinistas que compõe o núcleo masculino da série.

Por fim, há de se dizer que a série, consegue deixar o espectador curioso para ver o próximo episódio, mas não como antes, motivados por uma curiosidade um pouco misturada com o sentimento de “que porra é essa”, que aqui não é um elogio de forma alguma, vale dizer. Haverá uma quarta parte, que torço pra que seja a última e que não espero de maneira ansiosa ou nada do tipo. Cá estarei, assistindo curiosa, envergonhada e com muitas críticas na cabeça, intercalando com os olhos a revirar pelas falas carregadas de drama espanhol.

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