Sempre cultivei dois preconceitos dentro do Cinema – e não falo isso com orgulho, visto que essas limitações já me impediram de descobrir produções maravilhosas muitas vezes. Eram eles (ou são ainda, não sei bem): filmes musicados e filmes dentro da bolha do ensino médio. Os clássicos filmes americanos de “high school“, recheados de personagens prontos e não tão reais assim – bullies, pop-blondie-girls, nerds, emos, gordos, etc. Além de, é claro, as narrativas escolherem uma coisa supérflua como “o cara mais popular da escola se apaixonar pela nerd esquisitinha que vira uma gata e dá o pé na bunda dele” ou… é, acho que fica bastante nessa tônica.

Meu grande incômodo se dava na história não ser parte da minha, ou de tantas outras amigas e amigos que passaram pela escola. Isso pode soar narcisista e, foda-se, deve ser mesmo. Mas a constante falta de identificação diante de uma realidade fake sempre me fez revirar o estômago e ficar, cada vez mais, resistente à produções voltadas ao público adolescente. Não à toa demorei a gostar de “clássicos” como “Meninas Malvadas” (Aline, você me obrigou a ver e gostar), “A Mentira” (também obrigada) e por aí vai. Filmes que hoje em dia estão no Arquivo Guilty Pleasure dentro do meu histórico cinematográfico.

Christine “Lady Bird”, como a menina se auto-intitula, de saco cheio na missa local.

Lady Bird retrata Christine (Saoirse Ronan), uma adolescente de 17 anos que vive em Sacramento, na Califórnia, e não sente que pertence àquele lugar. Seja por costumes religiosos, pela falta de liberdade de expressão ou pelo absoluto tédio de ser nascida e criada na mesma cidade, a garota estabelece como seu grande objetivo sair dali o quanto antes. Além disso, o clima entre ela e sua mãe é… intenso. Tenso, na maior parte das vezes. Tudo soa bastante senso comum, certo? E é. E eu agradeço imensamente pelo filme trazer uma história banal à superfície. Estou cansada de roteiros de plástico.

Entramos na rotina de Lady Bird, que escolhe atender por outro nome que não o que seus pais lhe deram. A típica adolescente rebelde sem causa sim – e não somos um pouco assim, vez ou outra, durante nosso amadurecimento? É claro que isso não invalida, no entanto, algumas frustrações dentro do ambiente familiar da garota. A mãe é uma pessoa bastante difícil, que apresenta ter dificuldades para expressar-se com a menina e acaba desmotivando seu crescimento pessoal. Eu entendo ambas. Eu estive na pele de uma delas apenas, mas agora consigo ler a situação de forma diferente.

A necessidade de aprovação vinda dos pais que nos segue pela vida em uma foto: “mãe, será que você não pode só dizer que eu estou bonita?”

Foi impossível assistir ao longa sem me colocar ali o tempo inteiro. Fui uma adolescente difícil, que alternava entre uma maturidade de se admirar e irreverência muitas vezes desnecessária. Assim como Lady, eu queria voar pra longe e percebi muito cedo que não era só um voo, mas uma fuga. Uma fuga do que, na sua então cabeça de adolescente, simboliza suas mordaças ou algemas: seu lar. Sim, sua casa. E tudo nela incluso. O curioso sentimento de amar seus pais e bem no fundo até mesmo seu lugar de origem mas querer, ao mesmo tempo, mandar tudo pros ares. E na falta de habilidade para compreender que isso é um sentimento comum e que nem sempre significa que exista bem um culpado, a impulsividade adolescente faz com que corramos pra primeira brecha que se abre diante de nossos olhos.

É claro que a descoberta sexual está inclusa no enredo. E mais uma vez eu fico muito feliz em ver que o filme vai de maneira bem comum, sem glamourizar a primeira vez com aquela purpurinada toda de “pessoa especial” ou “fácil e prazeroso”. Em grande parte dos casos as duas coisas simplesmente não casam, você está ali sem saber bem o que fazer e com expectativas altíssimas para o tal do sexo. E quando rola é capaz de ser uma decepção de alguma forma.

Pensando por que tamanho dedo podre para escolha de namoradinhos… Eu te entendo, Lady.

Lady Bird (a quem mentalmente eu tô toda hora chamando de Ladybug) também passa por perrengues previsíveis na vida amorosa e dale identificação nesses instantes. Um primeiro namorado príncipe – até demais, e vocês entenderão por quê – e uma má escolha em seu segundo amor. O primeiro amor a gente nunca esquece mas, rá, se tem algo que a gente não esquece mesmo é a primeira quebrada de cara. E isso o filme nos tece bem na vida de Christine.

Quero ressaltar aqui que o filme retrata, sim, a parte amorosa da garota, mas não peca em torná-la o combustível para a trama, para meu total alívio. Afinal, seria irritante – e super pobre – resumir as aflições de uma menina à crushes correspondidos e mal correspondidos. Lady Bird anseia por mais, muito mais do que um amorzinho meia boca. A profundidade bem balanceada do filme, visto que não abre espaço pra um dramalhão mas também não fica superficial, conquista o telespectador – ao menos à mim conquistou e muito.

Por fim, a atmosfera anos 2000 contribuiu para a imersão à minha adolescência, passada também nessa época. A inserção de hits do início do milênio de Alanis Morissette e Justin Timberlake acertam em cheio na nostalgia e trazem lembranças quase que instantaneamente. O filme Lady Bird conquista espaço de maneira leve, orgânica e madura ainda que retrate uma menina genuinamente adolescente. Dito isso, a obra abarca desde a faixa etária presente no filme até alguém mais velho por não trancar-se numa bolha infantilóide como outros por aí.

Obrigada, Greta Gerwig!

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