Em 1961, o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, lidera um movimento sem precedentes na história do Brasil: a Legalidade. Após a repentina e estapafúrdia renúncia de Jânio Quadros, os milicos conspiram para não permitirem a posse do vice-presidente João Goulart, que causava arrepios nos quadros militares por suas posições consideradas radicais à esquerda. Lutando pela constituição, Brizola mobiliza a população para garantir a posse do vice, montando barricadas no Palácio Piratini e até mesmo pegando em armas.

Meus nobres 17 leitores hão de concordar que esse enredo, por si só, tinha um grande potencial para um puta filme, não? Na verdade, a demora em filmar essa trama demonstra o quão nossa História é mal explorada cinematograficamente. Mas a verdade é que um enredo como esse, quase pronto, é jogado no lixo nesse longa, desperdiçando uma chance de ouro de cortar uma bola na medida e ainda no ar.

Lá, lá, lá, lá, lá, Brizoooola…

Bem, para a Honra e Glória do mítico Juarez da Tecpix, primeiro vamos falar de coisa boa: Legalidade traz um trabalho muito competente da Diretora de Arte, Adriana Borba, e uma fotografia extremamente cuidadosa, a cargo de Bruno Polidoro. Os dois são responsáveis por uma ambientação bastante convincente e necessária para um filme de época e merecem, ao meu ver, essa menção honrosa. E é só. Infelizmente é só isso de bom que tenho a falar sobre esse filme, uma vez que roteiro, direção e atuações estão muito, mas muito abaixo da crítica e, obviamente, comprometem completamente o resultado final.

Para começar, é difícil até mesmo definir qual é a história contada no filme, tantos são os atropelos de roteiro. Temos ali a história de uma mulher (Letícia Sabatella) em busca do passado de sua mãe? Seria a História (com “H” maiúsculo) do Movimento pela Legalidade, protagonizado por Leonel Brizola (Leonardo Machado)? Talvez a história da dublê de jornalista e espiã da CIA (Cleo)? Ou ainda, a história de um surrado triângulo amoroso entre os irmãos Luis Carlos (Fernando Pinto) e Tonho (José Henrique Ligabue) com essa mulher? Depois de quase duas horas de projeção, não sou capaz de responder…

Será que ela tá queimando o roteiro?

O ritmo do filme é uma tragédia. Por conta dessa profusão de enredos mal desenvolvidos, temos cortes abruptos na narrativa o tempo inteiro. Em certo momento, com o movimento popular atingindo seu pico, o palácio onde os revoltosos se amotinavam cercado e ameaçado de bombardeio pelos militares, a narrativa corta para um de seus inúmeros flashbacks onde se vê uma cena de amor tórrido. Poderia ser bonito, mas é só tedioso e anti-clímax. Além disso, a inclusão de personagens completamente alheios à trama, como “El Comandante” Che Guevara, dão a forte impressão de só estarem ali para fins panfletários, nada contribuindo para o desenrolar da história. Sem contar a personagem de Sabatella num enredo paralelo “contemporâneo”. Ainda me pergunto o que ela faz ali…

Aqui chego ao que entendo ser o ponto mais problemático além de todos que já citei: a atuação de Cleo (que não é mais Pires!?) é ruim. Bem ruim. E há um erro primordial de roteiro ao colocá-la como protagonista da história, e isso não é culpa dela. Ela simplesmente não banca isso, claramente atrapalhada por uma personagem extremamente mal delineada e de uma canastrice exemplar. O seu mal desempenho chega a ofuscar trabalhos sensivelmente melhores à sua volta, principalmente o do ator Leonardo Machado (vitimado por um câncer no ano passado) na pele de Brizola que, mesmo não conseguindo chegar perto da força e carisma do retratado, ao menos se esforça para dar verosimilhança ao personagem.

“El Comandante” perdido na história (com “h” minúsculo)

Devo dizer que sou grande entusiasta do cinema nacional e acho que iniciativas como a de Legalidade, de recuperar temas históricos relevantes através da sétima-arte, são de fundamental importância em um país flagelado pela falta de educação básica. O Cinema não é – e nem deve almejar ser – um laboratório da História, mas pode exercer um papel fundamental no imaginário popular ao dar à narrativa histórica um elemento visual e dramático, tão importantes na constituição da memória. Portanto, é com pesar que constato que uma chance dessas foi tão claramente desperdiçada.

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