Querido leitor, caso a sua expectativa ao ler essa crítica seja encontrar palavras aconchegantes e finais felizes, eu aconselho que procure outro texto no MetaFictions. Pois, infelizmente, o que vem a seguir é a história de três órfãos desgraçados pela vida, numa aparente eterna busca de sobrevivência e tolerância em um mundo repugnante com raras exceções. Se na primeira temporada os pobrezinhos – no sentido de coitados (e também não no sexual), pois de grana eles tão bem – Klaus (Louis Hynes), Violet (Malina Weissman) e Sunny (Presley Smith) passam um sufoco atrás do outro, a 2ª vem para reafirmar a absoluta falta de sorte das crianças.

Contudo, para alívio do senhor leitor, podemos nos apoiar no aparecimento de dois personagens tão azarados quanto os descritos, que são os trigêmeos Quagmire; Isadora (Avi Lake) e Duncan (Dylan Kingwell) estão agora também na mira do perverso e cômico Conde Olaf (Neil Patrick Harris). Repare que usei a palavra trigêmeos mais citei apenas dois. Isso se dá pois, assim como os irmãos Baudelaire, eles também perderam tudo em um “misterioso incêndio” – inclusive um irmão.

Isadora, Klaus, Sunny (awwwwwn!), Violet e Duncan.

Mantendo lealdade para com os fãs, a série traz, queridos leitores, uma excelente adaptação baseada nos 13 livros da franquia infantil – que arrisco dizer que transcende a classificação, pela notável inteligência em piadas e condução de narrativa. Eu, como fã de carteirinha da sequência lançada nos anos 2000 aqui no Brasil, e colecionada até pouco tempo em minha estante, tenho que dar espaço para muitos elogios à essa produção da Netflix. A série consegue ao mesmo tempo ser respeitável em seguir a história como também incorporar novos elementos sem anular a primeira proposta. A história, que acredito que se passe nos anos 50, ganha toques de modernidade em seu roteiro com referências ao próprio serviço de streaming, assim como pequenos momentos musicados – afinal estamos falando de Neil Patrick Harris e ele tem talento pra isso – e, por que não, um quê de Spice Girls (!) em dado momento.

Falando em NPH, confesso que seu apelo cômico é pelo menos 50% do porquê da série ser tão palatável e bem feita. A escolha do ator, que me lembra um pouco o Jim Carrey só que menos foda – ai, não briguem comigo! – é essencial para construir o personagem de Olaf, um cara escroto mas que ao mesmo tempo é um vilão que conquista o público por ser ignorante e debochado. A marca do babaquinha é justamente o uso exagerado de palavras complexas para camuflar sua completa burrice, o que infla o cara com um ar de pedantismo, e o resultado é um vilão burlesco que troca letras. E pra essa percepção ficar ainda mais exata eu recomendo o áudio e legendas originais, deixando de contar com traduções nem sempre contemplativas e evidenciando trocadilhos da língua inglesa e erros vergonha-alheia.

Neil Patrick rainha da porra toda.

Evitarei entrar profundamente na cerne da história, muito por que já foi firmado o compromisso com o leitor – tanto nos livros, quanto na temporada anterior – de que a fórmula narrativa se repetirá. E não ouse interpretar que a repetição é sinônimo de falta de criatividade ou preguiça e que se trata apenas de um clichê. Não. A temática toda tem como chave essa grande sacada sacana (e tô aqui até abusada fazendo trocadilhos ruins) de ironizar o mundo, as pessoas estúpidas, ricas e, mais que tudo, os adultos. E a constante reconstrução da história (os órfãos vão pra um lugar > dá merda > ninguém acredita neles > tudo se repete) é essencial para a consolidação desse enorme sarcasmo.

A metalinguagem em looping, se assim posso chamar, que a narrativa encontra tem êxito. Primeiro, vindo da ideia do livro falar do quanto a literatura é importante para a formação moral do ser humano – repare que todos que não têm curiosidade pelo aprender ao redor dos irmãos Baudelaire se mostram idiotizados ou, no mínimo, alienados. Para escancarar isso, mil e uma referências são feitas: citações de livros de Jack London, livros sobre a República de Weimar e por aí vai. Livros, livros, livros. Livros por toda a parte! A segunda metalinguagem é a própria carreira do Conde Olaf, um ator em decadência que usa sua má atuação para armar seus mil e um planos (in)falíveis. E, bem, eu poderia passar algumas páginas aqui explicando as demais, mas prefiro que sejam passadas pelos olhos de você aí, leitor.

Os Baudelaire e Carmelita Spats, uma das inúmeras personagens embaladas a vácuo e “alérgicas a conhecimento”.

Como o autor alerta logo de início em seus livros e, na série, no início de cada episódio:  “não há nada que o impeça de fechar o livro imediatamente e sair para uma outra leitura sobre coisas felizes, se é isso que você prefere”. Eu, pelo contrário, aconselho um tragicômico mergulho nessa fantástica adaptação da Netlfix.

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