Faz 13 anos que li Desventuras em Série pela primeira vez e quase que precisamente que o último livro da saga foi lançado – isso aconteceu em dezembro de 2006 aqui no Brasil. Portanto, consigo com clareza me lembrar do presente do meu 10º aniversário: o livro “O Fim”, escrito por Lemony Snicket, pseudômino adotado por Daniel Handler, a mente por trás das desgraceiras dos órfãos Baudelaire. Era uma época em que minha progenitora me levava pra passear em diversas livrarias e eu sentava no chão e lia livros que nem comprara ainda – mas dificilmente sairia com nenhum nas mãos. Ali, “O Fim” estava nas minhas mãos, e eu já o folheava ainda na fila do caixa da Saraiva.

Revisito esse momento na terceira e última temporada da série-adaptação dos 13 livros (treze é um número relevante no universo criado por Snicket, acredito que por aludir ao azar, elemento chave na jornada dos irmãos), meticulosamente transferida para as telinhas por ter sido “roteirizada” pelo próprio autor. É fantástico ver em cores o que uma mente infantil imaginava através de palavras; a série cativa justamente por permitir esse encontro de artes e percepções do passado e presente agora adulto.

O que será que espera pelos os três irmãos ?

Continuamos com a clássica fórmula de Livramento de Apuros > Empreitada > Conde Olaf estraga tudo, agora nos demais cenários. A começar pelo Escorregador de Gelo, em um topo de montanha glacial; A Gruta Gorgônia, num submarino nas profundezas do mar; O Penúltimo Perigo, em um hotel cinco estrelas e, finalmente, O Fim, numa ilha que faz menção à Ilha de Huxley (ultimamente todas as críticas tem levado à ele, não é mesmo?). O caminho dos nossos protagonistas se cruza com novos personagens e personagens em desenvolvimento desde as demais temporada, dentre eles Kit Snicket, Carmelita Spats (ranço), Juíza Strauss e etc.

Um fato aleatório, mas que para alguns esquisitos assim como eu pode ser curioso é que mentalmente fiz um crossover de duas séries por conta do elenco que se encontrou. Will Arnett e Tony Hale, conhecidos por “Arrested Development”; Cobie Smulders e Neil Patrick Harris e “How I Met Your Mother”. Agora que já tirei essa informação da minha perturbada mente, prossigamos. Falemos de Neil Patrick, figura que dá um tanto de sentido para a série ser tão boa e também seu produtor. Na terceira temporada, Conde Olaf é retratado com mais humanidade, o que é interessante… no entanto, senti falta da característica acidez e tiradas vilanescas que agraciaram as temporadas anteriores. Muito disto se dá pelo fato de menos tempo ser investido em Olaf e mais nas histórias paralelas que vão fazendo sentido nessa finale.

Poxa, Neil Patrick Harris, sem defeitos.

Por fim, literalmente, a série opta por um final ligeiramente diferente dos livros – mais otimista, por incrível que pareça -, muito provavelmente como um resultado de ideias que o autor à época não teve ou optou por não seguir. Por conta disso, acho razoável que tenha seguido o caminho que seguiu, apesar de ser obrigada a cair na tentação de dizer que “o livro é melhor”. Desculpe, Rene. Sei que são mídias diferentes, blábláblá. Mas aprecio profundamente uma desgraceira das piores possíveis, logo…

Ainda com essa ressalva, Desventuras em Série é brilhantemente orquestrada, seja retirando palavra por palavra dos livros, seja acrescentando atualizações de nossa década. Teatral, acessível e, mais que tudo, flexível por seu conteúdo servir bem à adultos ou crianças – ou os que flertam, como eu, entre um estágio e outro da vida.

Sugestões para você: