Na semana passada, em mais uma sexta-feira de isolamento social, estava este crítico que vos escreve, leitor Metafictions, na companhia de seus dois atuais companheiros da noite deste dia que, outrora, era dedicada aos bares e às aglomerações: carboidratos e mais um episódio de “RuPaul’s Drag Race All Stars”. Eis que fui, então, bombardeado por uma memória vívida , não somente minha, mas de qualquer um que possuía um aparelho de TV nos anos 90. Em um desafio no qual as drag queens do reality deviam incorporar celebridades, a maravilhosa Alexis Mateo aparece com o armadíssimo penteado, as joias e a exuberante capa do sensitivo mais famoso da História para a comunidade latina nos Estados Unidos e milhares de pessoas ao redor do mundo. Uma frase e qualquer brasileiro sabe de quem falo: ”ligue djá!”. Sim, senhores, estamos falando do inesquecível Walter Mercado.

Qual não foi a minha surpresa – ou seria uma conjunção cósmica – quando menos de uma semana depois a Netflix estreia o documentário Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado, dirigido por Cristina Costantini e Kareem Tabsch. Nele, os espectadores são levados à história do porto-riquenho Mercado que, após 50 anos de uma vida vivida em frente às câmeras de TV e com uma rede de consultas espirituais por telefone em mercados como os Estados Unidos, Brasil e Holanda, estava há mais de 10 anos desaparecido dos holofotes. Além das entrevistas com o próprio, também conhecemos seu inseparável assistente, membros de sua família e fãs famosos, como o premiadíssimo ator, escritor e compositor Lin-Manuel Miranda, que, emocionado, consegue se encontrar com o guru-ídolo de sua infância.

Embarcando na analogia das cartas de tarô que guiam as partes da produção, a Estrela do documentário brilha ao revelar detalhes da vida do biografado que nos eram desconhecidos apesar da sua exposição constante. A infância simples em Porto Rico, a carreira de ator de telenovelas, a entrada inesperada e acidental nos ofícios “espirituais” e a rasteira dada pelo empresário que quase o fez ser proibido de usar o próprio nome e gerir sua fortuna. Todos esses detalhes prendem a atenção e ampliam a curiosidade que já tínhamos sobre o senhor das capas.

O Sol, porém, é o próprio Walter Mercado. Octogenário, ele ainda exibe a verve, o carisma e os truques teatrais que encantavam as multidões. Vaidoso, preocupa-se com a luz, os looks e a maneira como está sendo retratado, mesmo quando acamado por sequelas de um tombo. Seu discurso, tal como um canto de sereia se essas usassem vestimentas cravejadas de Swarovskis, ainda é sedutor. É impossível para a câmera não o amar.

Mas a Torre desaba em outros aspectos de Ligue Djá. As diretoras, além de se valerem de uma edição bem caretinha, caem na maior armadilha dos documentários biográficos: a heroicização acrítica do retratado. Todos os aspectos mais espinhosos sobre Walter Mercado enquanto fenômeno de massa são tratados por alto ou entregues para que o próprio argumente ou simplesmente deixados de lado. Com certeza pesou na decisão sobre a abordagem o fato dele ter morrido poucos meses depois das cenas mostradas na produção.

Assim, soa incômodo não ouvir alguém que tenha se sentido vítima de charlatanismo ao ligar para a hotline astral e receber uma conta telefônica astronômica ou não questionar a sexualidade do mesmo, alvo da curiosidade de todos e das piadas de centenas de comediantes da época frente a seus trejeitos e visual andrógino. Em vez disso, recebemos um sorriso enigmático de WM que, entre imagens de Oscar Wilde, Rita Hayworth e outros ícones LGBTQI+, afirma que “sexo é espiritual” e um ativista da causa apontando que, apesar de nunca ter saído do armário, sua onipresença na tela era um alento para jovens homossexuais.

No mapa astral de seus 96 minutos, Ligue Djá exibe uma mística pisciana, o espalhafato visual e glamuroso dos leoninos e a discrição capricorniana ao falar de sua vida íntima. Mas Sol, Lua, Estrelas, Lantejoulas, Glitter e qualquer outra coisa que brilhe pairam sobre Walter Mercado e a persona que ele construiu para si.

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