Quando morávamos no Texas, eu e minha esposa adorávamos visitar um lugar chamado Austin Books & Comics. Naquela sensacional lojinha cujo correlato inexiste no Brasil encontrávamos todo e qualquer tipo de quadrinhos de todos os lugares do mundo. Do mais óbvio gibi de super-heróis às mais cult graphic novels europeias. Eu ia comprar Conan, Guerra nas Estrelas e nerdices similares e minha esposa procurava os gibis que casavam a história mais inteligente com o traço mais instigante possível. Sua preferida talvez tenha sido Locke & Key, uma série (do tipo com inicio, meio e fim) publicada pela editora IDW, escrita por Joe Hill – que vem a ser filho do renomado escritor Stephen King – e ilustrada por Gabriel Rodriguez.

O quadrinho vencedor do Eisner Award narrava a história da família Locke, que se muda para a antiga casa de seus antepassados em Massachusetts após o assassinato de Rendell Locke, marido de Nina, pai de Tyler, Kinsey e Bode. Na casa, chamada não por acaso de Key House, a família encontra chaves mágicas que destrancam muito mais que apenas fechaduras e uma entidade maligna que não medirá esforços para tomá-las para si. O enredo é simples mas a história em si é tudo menos isso. Com diversos flashbacks e narrativas paralelas, e escrita com maestria por oito arcos (aqui em casa espalhados por edições encadernadas e gibis avulsos, alguns autografados e com capas alternativas), a HQ consegue transportar o leitor para um universo riquíssimo e profundo e rasgar seu coração nas várias e várias… e várias mortes sangrentas.

Jackson Robert Scott in Locke & Key (2020)

Locke & Key, a série de 10 episódios da Netflix, é a mais nova adaptação dos quadrinhos para a TV. Digo a mais nova porque não foi a primeira tentativa. Há ao menos uma outra que jamais passou do piloto e vários rumores de trocas de mãos entre produtoras e estúdios de trilogias, filmes e séries, o que levou os fãs a acreditarem, depois de uma década de idas e vindas, que talvez jamais vissem tal história nas telas. E há várias questões que poderiam levar a produção ao fracasso, da escolha dos atores à ambientação da própria casa – esta um personagem tão importante quanto qualquer outro de carne e osso – passando pelo “tom” escolhido para a série. Os quadrinhos são pesados, violentos, bastante crus para uma história que basicamente gira em torno de três crianças e sua mãe. Transpor o roteiro original para a tela de forma idêntica poderia afastar um público geral que desconhecesse a HQ e gerar complicações técnicas para a equipe de efeitos especiais. Por outro lado, amenizar demais o clima surreal e violento do gibi poderia desagradar aos fãs originais. Era necessário encontrar os ingredientes certos para a série funcionar na TV.

Connor Jessup, Emilia Jones, and Jackson Robert Scott in Locke & Key (2020)

Antes de publicar a crítica, eu quis assistir a todos os episódios com atenção e conversar com a maior especialista no título que eu conheço: Anna Eliza, minha esposa. Se ela curtisse as mudanças – e elas não são poucas – então a série de fato mereceria palmas. E a Netflix novamente acertou no ponto certo ao incluir tudo o que precisava ser incluído e deixar de lado os exageros dos gibis. O resultado é algo que mistura aventura (aquela de sessão da tarde), fantasia, e terror/suspense meio viajandão no estilo Lovecraft, que é, aliás, o nome original da cidade onde fica a Key House nos quadrinhos, mas que foi mudado na série para Matheson sabe-se lá por quê. A ideia central do gibi foi mantida de forma bastante fiel e não há muito o que os fãs possam choramingar realmente. Nenhum “crime” foi cometido. Houve mudanças e, apesar delas (ou por causa delas) ,a série é uma das melhores adaptações de uma HQ pra TV que já assisti. Produtores, diretores, elenco e direção de arte conseguiram compreender com rara habilidade como contar essa história que, convenhamos, se você já leu o gibi (e eu recomendo muitíssimo se não o fez) sabe o quanto é complicada de se imaginar transportada das páginas para a tela.

Laysla De Oliveira and Jackson Robert Scott in Locke & Key (2020)

Não apenas o roteiro e os personagens foram tratados de forma inteligente e agradável, mas a produção decidiu contar a primeira temporada como uma história com começo, meio e fim, não distante do que fora feito com os próprios quadrinhos. Já está tudo lá. Tudo o que precisa ser entendido e visto está presente de forma satisfatória para os fãs, caso a série não venha a fazer tanto sucesso que justifique uma continuação. No entanto, no caso de as expectativas financeiras serem alcançadas, há bastante coisa deixada de fora para que se possa explorar indefinidamente tal universo. Um passo acertado e realizado com bom gosto e respeito àqueles que simplesmente queriam ver seu gibi favorito na tela. Não há aquele cliffhanger irritante, ou aquele buraco na trama que precisará de mais três temporadas para se justificar. Se acabar aqui, então foram 10 excelentes episódios que contêm tudo o que o fã mais hardcore poderia querer ver. Mas há, é claro, o gancho para a possível e desejável continuação no estilo dos filmes de terror de outrora – o fim não é o fim absoluto. Cabe ao público dar seu aval para a série voltar. E se meu voto vale de alguma coisa, espero que volte, e logo.

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