Uma das características que mais me atrai nos animes é a variedade de maluquices que são propostas em seus roteiros. Tem para todos os gostos, indo desde vampiros britânicos matando membros do bope no Rio de Janeiro manipulados por nazistas alemães sobreviventes da 2a guerra mundial, até uma panda vermelha lutando contra o machismo na sua busca pela felicidade em Tóquio (o belo Aggretsuko). Esses exemplos mostram o talento dos roteiristas nipônicos ao dar vida a concepções fantásticas e, por incrível que pareça, funcionais.

E esses animes funcionam por uma questão muito simples: eles são críveis. Tudo que ocorre dentro daquele universo criado está em consonância com as premissas estabelecidas nos primeiros episódios. No entanto, quando a obra falha em te fornecer embasamento suficiente para compreensão dos fenômenos e das relações entre personagens, instituições e grupos, acabamos por achar tudo forçado, minguando a satisfação em assistir conforme os episódios passam.

Lost Song é um desses casos de desconexão. Durante 7 episódios (de um total de 12), somos apresentados à personagens bem pouco cativantes em dois núcleos separados. Temos na capital de um reino a trovadora Finis (Yukari Tamura), que é noiva de um príncipe daqueles bem feios e filhos da puta, um que sonha em dominar o mundo e que está conduzindo o país rumo à guerra. Enquanto isso, acompanhamos também a história de Rin (Konomi Suzuki), outra trovadora que vive num vilarejo na zona rural dessa mesma nação e que sonha em cantar na capital, para onde migra com seus amiguinhos.

Neste mundo, as trovadoras são dotadas de algo mágico que desperta ao cantarem canções específicas. Dependendo da canção – que ao que parece são bem catalogadas e registradas – eventos como ventanias, curas milagrosas e manipulação da água e do fogo ocorrem sem muita explicação de como ou porque. Mas há um preço a ser pago. A cada performance, a vida da trovadora se esvai, tornando seu poderoso uso algo a ser utilizado com moderação. O poder das músicas é tão grande que as trovadoras são usadas nas linhas de batalha que nem em “Marte Ataca!“. O problema aqui não é ser mágico – que aliás ajuda muito a (não) explicar de onde surgem labaredas e ferimentos fechando -, é a escala da magia e como ela é executada.

Existe música para tudo. Precisa cagar? Música laxante. Está com problemas de ereção? Música viagra. Algumas delas são tão poderosas que conseguem, literalmente, destruir o mundo inteiro de formas que é IMPOSSÍVEL não se perguntar como. Pior é a forma que elas são executadas, como num feitiço, cantadas com performances que incluem um gingadinho e uma música de fundo – que eu não sei ainda de onde surge – em situações que causam vergonha alheia.

Não satisfeita, no início do terço final da série, Lost Song pegou tudo o que havia desenvolvido até o momento, jogou fora e deu início a uma insanidade, que, a princípio, pereceu interessante, mas foi desenvolvida com tantos furos e situações tão improváveis que acabou por matar o pouco de simpatia que eu nutria pelos seus personagens. Só nos 3 últimos episódios que ocorre uma tentativa de dar coesão a essa maluquice, mas, mesmo forçando uma barra, não foi suficiente para validar nem justificar todos os ocorridos sem nexo e poderes etéreos das trovadoras. E tudo isso embalado por diálogos terríveis e uma dublagem amadora.

Em termos de enredo, é essencialmente o descrito no 3o parágrafo. A história anda muito devagar, apresentando novos personagens a todo momento e deixando-os superficiais, numa trama sem sal algum, com eventos nada críveis e um final que não redime. Quer assistir um bom anime sobre o poder da música? Fique com o crível, bem dublado, escrito e dirigido “Forest of Piano“, também disponível na NETFLIX.

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