“Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda a roubá-la!”. A frase de Lou Andreas-Salomé, pela sua força e tom desafiador, já resume bem quem foi essa mulher e os obstáculos que teve que enfrentar no início do século XX. Filósofa, romancista, poeta e uma das primeiras psicanalistas, essa criatura nascida na Rússia, mas com a vida construída na Alemanha, é, sem dúvida, uma das mais intrigantes personalidades do nosso tempo. Sobre ela se desenrolam as quase duas horas de Lou, da diretora alemã Cordula Kablitz-Post, que também assina o roteiro. Uma mulher tão peculiar merecia, no entanto, uma cinebiografia menos convencional.

Não que o filme seja ruim, longe disso. A seu favor pesam a interessantíssima escolha da retratada, ainda pouco conhecida em terras brazucas, apesar de sua gigantesca contribuição ao mundo, a competência das atrizes que a interpretam nas diferentes fases da vida e um punhado de engenhosas escolhas estéticas que deixam à mostra o olhar afiado da diretora.

Nascida em uma época em que as mulheres não tinham direito á educação e fruto de uma família rica e religiosa, desde a infância Lou foi uma transgressora. Aceita na Universidade de Zurique, disposta a mudar a condição feminina, o pensamento e a escrita nortearam sua trajetória. Testemunha do inicio daquele século que Eric Hobsbawn caracterizou como a era dos extremos, ela foi aluna de Freud e a primeira psicanalista a se dedicar ao estudo da sexualidade feminina. Também, já na velhice, foi perseguida pela ascensão do nazismo, que considerava a psicanálise uma ciência judaica.

Essa personalidade vai ser defendida com muita competência na tela por 4 atrizes. Na infância pela fofíssima Helena Pieske (sabe criança que tem cara de que sentaria no bolo de aniversário no meio da festa?), aos 16 anos, por Liv Lisa Fries, que oferece uma bela interpretação com fogo nos olhos. Mas o grosso do filme fica dividido entre Katharina Lorenz, que dá vida à protagonista dos 21 aos 50 anos, de forma muito intensa e impetuosa, e Nicole Heesters, dona da interpretação mais forte da produção, dando vida à Lou aos 72 anos. As quatro, juntas, dão conta dessa mulher maior que o mundo.

Outro ponto positivo da obra é a refinada direção de arte e o bom uso de efeitos visuais para situar o tempo. A ideia de transformar as memórias da Lou idosa em cenas como se as fotografias e cartões postais ganhassem vida ficou extremamente graciosa na tela. Essas escolhas estéticas escorregam, porém, na trilha sonora invasiva e óbvia e na edição preguiçosa, que prejudica muito o ritmo do longa (eu e minha obsessão por ritmo, mea culpa, leitor, mea maxima culpa).

A grande derrapada se dá em dois pontos (ou seria em dois pés?). O primeiro é uma falha comum em cinebiografias. Às vezes, a paixão pelo retratado é tamanha que o roteiro e a produção embarcam em uma reverência excessiva, quase um endeusamento, que tira da personagem o que ela tem de mais forte: a sua humanidade. Em vários momentos, Lou se deixa levar por isso. Desnecessário transformar uma mulher daquele porte num projeto de Forrest Gump feminista (quando a figura real já é a própria essência do feminismo, daquelas da gente encher a boca e falar: eta, feministona foda da porra!).

A segunda me incomodou mais. A maior parte da história se dedica ao efeito que que a Sra. Andreas-Salomé causou na vida dos homens que passaram por ela. Mais que a força de seu pensamento (e, talvez, seja por isso que Nicole Heesters se destaque, sua parte do filme é a que mais se dedica às ideias de Lou), o longa retrata a protagonista como a mulher que enlouqueceu de paixão a Nietzsche, que foi a inspiração de Rilke, que fez com que tantos outros se apaixonassem e nunca se entregou totalmente. No fim, o que era resistência e pensamento por vezes é visto na tela como caprichos de uma devoradora de homens.

Lou Andreas-Salomé é uma figura que não pode ser esquecida e esse quesito o filme cumpre. Só faltou nele a coragem e a ousadia que a sua protagonista tinha de sobra.

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