Como bem já alertou nosso querido editor-chefe na sua crítica em um dos melhores e mais violentos animes de 2018, DEVILMAN: crybaby, caso você tenha menos de 18 anos, não assista Love, Death + Robots. E falo isso – diferente do Gustavo, que é advogado – por me preocupar com a saúde mental de quem ainda não tem maturidade para entender e assimilar de forma saudável o teor dessa bela antologia. Contudo, se você está apto ou solenemente ignorará esse aviso, saiba que a sua frente está uma coletânea de obras que todo fã de ficção científica deveria assistir, sendo dois de seus produtores, David Fincher e Tim Miller, referências no gênero. Seguindo a mesma pegada de A Balada de Buster Scruggs (indicado também em nosso Garimpo NETFLIX #8: Oscar 2019), Diário de Horrores e Black Mirror – assemelhando-se mais a esse último – temos um conjunto de curtas animados estilo Animatrix, com propostas visuais distintas, girando sempre em torno dos temas que dão nome a série, amor, morte e robôs.

Embora tenha sido levado a acreditar que todo episódio contaria com os 3 elementos – e muitos contam -, há sempre aqui um esmero em elevar pelo menos uma dessas temáticas ao destaque. No que tange ao amor (love), ficamos basicamente na sua consumação. Somos brindados com putaria braba e nudez explícita constantemente, que, somado com a morte (death), proporcionou cenas perturbadoras de extrema violência gráfica, incluindo sexual. Esses dois quesitos se alternaram nos diversos episódios, carregando a motivação das estrelas da antologia, os robôs (robots).

Eu não sei ao certo como me sinto em relação aos robôs desse título. Tenho um sentimento de dualidade, na verdade, já que nem todo episódio envolve alguma inteligência artificial. Uma porção grande do total é centrada em algum ser não orgânico, contudo, o termo robô deixa uma área cinza que permite outros tipos de seres não totalmente independentes e orgânicos de serem classificados como tal, como mechas operados por humanos, ciborgues e tecnologias steampunk. Até aí ok, compactua com a temática. O “problema” são os episódios que são centrados em seres completamente orgânicos, como no caso de alienígenas. Mesmo sendo passados num cenário futurista, o que temos ali é a total exclusão de inteligência artificial ou aparatos mecânicos fundamentais para o desenvolvimento da história. Porém, mais uma vez, a gente pode fazer uma força e considerar que estação espacial é Robô e que sem as tecnologias avançadas não teria argumento. Mas eis que um punhado de episódios são centrados no sobrenatural e fantasia, com humanos e em nosso passado, excluindo por completo a temática robótica (embora a Morte e o Amor estejam lá). Por mais que tenha me sentido enganado e tenha feito um leve desfavor para a essência da antologia, esse punhado fora de eixo produziu excelentes episódios e elevou sem sombra de dúvida a qualidade final… mas, convenhamos, há aí uma certa fuga do tema.

Um outro fator que me causou um misto de expectativas e emoções foram os episódios com tom cômico. 80% do total, por ser muito violento e tratar de temáticas densas, flertou com o drama, terror e ação, todos gêneros que criam ansiedade e te deixam grudado na tela. Como as animações são curtas, variando de 6 a 18 minutos, isso permitiu que eu ficasse investido 100% do tempo de exibição, parando para respirar, tomar uma água e assimilar o que eu tinha visto no fim de cada episódio. Por ter assistido de forma aleatória – lendo a sinopse – acabei caindo em um de comédia apenas na 5a entrada, causando uma senhora quebra de expectativa. Porém, em meio a minha decepção inicial, quando eu achava que sairia do modo tensão, fui bombardeado por comentários críticos com humor negro tão perturbadores quanto o resto da obra, mas de uma forma diferente.

Esses desvios da temática e do tom central produziram meus episódios favoritos, como “Os Três Robôs”, com eles fazendo turismo por cidades pós-apocalíticas na Terra, tirando fotos com corpos de crianças pendurados e questionando a existência de um projeto divino; “A Guerra Secreta”, com os camaradas soviéticos durante a 2a Guerra Mundial lutando contra forças demoníacas na Sibéria; e o “Para Além da Fenda de Áquila”, que vai te deixar tão perturbado quanto as Wachowski Sisters te deixaram lá em 1999. É estranho que as animações mais interessantes – mesmo todas mergulhadas na mais pura ficção científica – sejam de comédia ou não envolvam robôs, o que não quer dizer que as demais deixem a desejar ou sejam ruins, mas fez parecer que o termo Robô foi largado ali só para instigar e captar uma audiência direcionada.

Caso você precise criar empatia e conhecer os personagens profundamente para se importar, essa não é uma série pra você. Como são curtas, não há desenvolvimento de personagem, com no máximo algumas falas largadas só para dar um contexto. Mas na maior parte, os episódios se valem apenas de uma situação e um argumento, com alguns apresentando plot twist dignos de filmes do M. Night Shyamalan e outros cobrindo apenas uma cena pura e direta de ação.

E se há algo que todas as animações possuíam em comum era um visual estonteante. Animações 3D “fluidíssimas”, 2D com conceitos artísticos tirados diretamente de HQs, concepções de desgin abstratas e realistas, impressionantes como nunca vi antes, stopmotion e até live action estão presentes. Independente da proposta visual, o roteiro, argumento, performances e trilha sonora são primorosos, perdendo apenas um tanto no foco para onde aponta a série.

Levando você para estações espaciais distantes, desertos, cidades distópicas, futuros pós-apocalíticos, mundos alienígenas e para a Alemanha e URSS do século XX, Love, Death + Robots vai te deixar perturbado, descontraído e introspectivo. Junto com “Black Mirror”, é de fato uma das melhores antologias sobre ficção científica que há disponível atualmente. Não deixe de assistir e volte aqui para dizer seus episódios favoritos!

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