Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do Diabo, pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.
Efésios, 6:11 – 12

A humanidade é crente por natureza. Porque desvendamos leis da natureza e continuamos obcecados em compreender a origem de nossa existência, criamos o culto à ciência. E porque não somos capazes de aceitar nossa limitação e mortalidade e nossa total responsabilidade pelo sucesso ou falha dos nossos atos, criamos os deuses e a religião. E nesse último ponto, mesmo que em pleno século XXI, os seres humanos parecem ainda não serem capazes de aceitar a diversidade e diferença de pontos de vista, uma “verdade universal” parece unir as diferentes mitologias religiosas: a luta do Bem – da Luz, da Verdade – contra o Mal – as Trevas, a Escuridão, a perversidade e mentira.

Enquanto filhos de um ocidente cristianizado, somos apresentados desde cedo ao embate celestial: Deus, o todo poderoso e fodão ser supremo criador de tudo que existe e que é um pai amoroso e generoso, impõe apenas uma regrinha simples para seus filhos – adorarem ele e serem gratos por sua bondade; em contrapartida, somos apresentados também ao anti-herói da história, ao vilão maligno da humanidade, pai da mentira, enganador, promíscuo e grande filho da puta traidor, o Diabo. E nesse embate não tem lugar pra voto nulo caro leitor, ou você tá de um lado ou do outro – citação de qualquer pregação de pastor de qualquer igreja. E pra você que, assim como eu, cresceu sendo arrastado pra cultos ou missas desde criança, essas duas entidades provavelmente assombraram bizarramente – ou ainda assombram – o seu psicológico, muitas vezes restringindo suas ações pelo medo do grande estigma do pecado: eis o maior controlador social da história – o medo de arder no mármore do inferno.

E é dificil se libertar dessa ideia num país em que a premissa religiosa virou política de Estado. Onde é mais fácil achar uma igreja evangélica num bairro pobre do que um cinema ou teatro – ou escola pública de qualidade – e onde o pensamento científico é tratado com descaso. Por todos esses fatores, já adianto aqui a minha absoluta tendência favorável à essa série que chega a sua 4a temporada e que é meu maior guilty pleasure – Lucifer!

Baseada nos personagens e trama-base criados por Neil Gaiman, Sam Kieth and Mike Dringenberg para as Graphic Novels da DC Comics, a série, inicialmente produzida e distribuída pela FOX (2016-2018), caiu nas graças de um público seduzido pela leveza e comicidade do enredo, claramente criado para ser, antes de mais nada, entretenimento acessível a diversos tipos de público adulto.

O sucesso relativamente grande da série nos EUA e na América Latina – vale mencionar que no Brasil a série também arrebatou uma legião, sendo um dos maiores fandoms – fez com que ocorresse uma comoção ano passado após a FOX anunciar o cancelamento da produção após a 3a temporada. Foram milhares de posts e pedidos desesperados nas redes sociais, que levaram a Netflix a comprar os direitos para a produção da 4a temporada, lançada agora em maio.

Agora sob o selo Netflix de qualidade, seguimos a história de Lucifer Morningstar, ninguém menos que o Belzebu que tirou férias do inferno para viver “normalmente” em Los Angeles como dono de uma boate. Vivido pelo (atenção para calcinha molhada aqui) maravilhoso Tom Ellis, dono de um carisma e sex appeal que, na minha humilde opinião, carregaram a série nas costas desde a primeira temporada, o personagem talvez seja o maior responsável pelo sucesso da série, protagonizando cenas hilárias ao se tornar consultor para a polícia de Los Angeles e trabalhar em parceria com a detetive Chloe Decker (Lauren German). Lucifer, orientado pelo princípio do prazer, é extremamente questionador principalmente da moralidade cristã e heteronormativa. Além de possuir superforça, Lucifer tem um poder natural de persuasão e sedução típicos do anticristo, que lhe dá vantagem na manipulação das pessoas e no trato social. A exceção à regra é justamente a detetive, que parece ser imune aos efeitos de sedução do demônio, além de torná-lo vulnerável de sua força e mortalidade, intrigando Lucifer e levando-o a ficar cada vez mais interessado nela.

Desde o início da série, é estabelecida a clássica premissa da tensão sexual entre Lucifer e Chloe, além do embate filosófico entre ele e “seu pai” divino, representado pela presença do anjo Amenediel (DB Woodside), que insiste em tentar persuadir Lucifer a voltar ao inferno. Entre o desenvolvimento e desfecho da trama principal, subtramas ganham espaço e os personagens secundários – a parceira de punição de Lucifer, a demônio Mazikeen (Lesley-Ann Brandt), a psicóloga Linda (Rachael Harris), que ajuda o satanás em seus dilemas existenciais, os agentes Dan (Kevin Alejandro) e Ella (Aimee Garcia) participam ativamente do núcleo policial, assim como a advogada corrupta Charlotte (Tricia Helfer) e até mesmo nosso eterno Clark Kent de Smallville, Tom Welling, que interpreta o lendário Caim na 3a temporada – têm seu lugar a cada episódio.

De maneira geral, a série mantém em sua 4a temporada a mesma fórmula das anteriores com o leve toque Netflix, apresentando interessantes plots ao longo de seu desenvolvimento, um tom mais sombrio em alguns momentos – o oitavo episódio certamente apresenta o melhor roteiro, atuações e temática de toda a série – além de muita nudez e insinuações de sexo, orgias e uso livre de drogas, o que parece ser um estereótipo do estilo de vida da cidade dos anjos. Além do humor, a série utiliza outro recurso de grande aceitação do público: sequências de ação, com mortes, pancadaria e tiroteio pra todos os gostos. O uso de efeitos especiais também se desenvolveu fortemente ao longo da série, mas vemos nesta temporada que o dinheiro da Netflix faz diferença na qualidade de todas essas sequências mencionadas. Até no físico de Tom Ellis a plataforma influenciou, exigindo um shape marombado do ator, obviamente para valorizar as cenas de nudez.

Apesar das atuações bem questionáveis – e olha que já melhoraram muito desde a primeira temporada – e um enredo interessante mas superficial e com alguns furos – apesar desta ser certamente a melhor temporada da série – Lucifer agrada por apresentar, com muito humor, o tema da rebeldia, da defesa do livre-arbítrio do ser humano e sua libertação das amarras religiosas sem necessariamente questionar a fé, mas tão somente a radicalização das pessoas e suas intolerâncias e fundamentalismos. A diversidade e a temática LGBTQI também aparecem como fator importante de representatividade na série. Dito isso, recomendo fortemente Lucifer como uma excelente fonte de diversão e entretenimento – tanto para os mais beatos quanto para os mais promíscuos.

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