Queria antes de qualquer coisa registrar aqui o meu protesto quanto ao nome de série merda do History Channel que resolveram inventar para a tradução brasileira do título. Lutas Ancestrais é, além de um nome genericaço, um desserviço ao espectador, pois induz a erro. O título em português leva a crer que estamos diante de uma obra que se presta a desvendar os mistérios de artes marciais antigas e tradicionais, quando, na verdade, a proposta da série é bem diferente disso, sendo que, inclusive, duas das lutas mostradas sequer são antigas. O que se propõe aqui, conforme é falado logo no início do 1o episódio, não é um aprofundamento nas lutas, mas, sim, lançar um olhar sobre as pessoas que lutam.

Lutas Ancestrais acompanha o ator, artista marcial e aficionado por lutas Frank Grillo (daqueles atores que você vai reconhecer mas sem saber muito bem de onde) em 5 episódios de 40 minutos nos quais ele visita 5 países diferentes e analisa as repercussões culturais e sociais que a luta tem na vida de seus praticantes. Começando no México com o boxe, passando pelo muai thai na Tailândia, o lethwei em Myanmar, pela luta livre laamb senegalesa e finalizando com o krav magá em Israel, a obra cumpre com muito louvor aquilo que se propõe.

Em que pese um primeiro episódio destoante no México que, talvez até apropriadamente, aposta numa pieguice exagerada e na fanboyzice de Frank com as verdadeiras lendas do boxe que ele encontra, o restante da série acerta na mosca em sua proposta de encontrar na luta um aspecto indelével da cultura de qualquer comunidade, tão importante, impactante e presente quanto todos os outros.

Correndo o risco de parecer mais um reality show sobre um sujeito que viaja e entra na porrada em vários lugares (o que inclusive já foi feito com a série “Fight Quest” do Discovery), é quando os criadores focam no aspecto humano que a obra atinge níveis de excelência e sensibilidade raramente vistos em outras que exploram o mundo das lutas. A violência e a luta são elementos inerentes à condição humana. Negar isso é negar a realidade. Entender e aceitar isso é encontrar mais um fator de união para as pessoas, algo que se relaciona da mesma forma com povos tão díspares quanto mexicanos, israelenses e senegaleses. E com isso, com as histórias em comum que estes povos compartilham, que a série se sobressai.

Frank Grillo funciona muito bem como orelha, ainda que às vezes se deixe carregar pela tietagem aos seus ídolos do boxe mexicano e do muai thai, como os legendários Julio Cesar Chavez e Buakaw. Ele é conhecedor e praticante de lutas desde moleque, o que talvez tenha permitido a ele ter a reverência necessária aos verdadeiros monstros dos mais variados tipos de luta com quem conversa, permitindo que a lente do diretor Padric McKinley faça seu escrutínio daquelas pessoas que vivem pela luta e nela entendem seu papel no mundo.

Tecnicamente, trata-se de um documentário que também prima pela qualidade da narração, pela trilha sonora sempre no ponto certo e, principalmente, por uma cinematografia que o distancia positivamente das demais obras do gênero, mesmo usando um diretor de fotografia diferente por episódio. A isto tudo ainda soma-se uma edição precisa, que ajuda ainda mais a destacar esta série.

Em nenhum episódio todos estes aspectos que me fazem dar quase que a nota máxima à série são mais evidentes do que no 4o, o do Senegal, que foca na luta livre senegalesa conhecida como Laamb. Nele passamos muito, mas muito pouco tempo acompanhando a luta final dos dois mitológicos gigantes senegaleses. O que importa aqui é entender o aspecto cultural do laamb e como ele se propaga por toda a sociedade senegalesa, explicando a salada ecumênica do lugar muito melhor do que qualquer aula de antropologia ou religião poderia fazer, tudo entremeado por imagens belíssimas e uma narração perfeita em seu minimalismo.

Já o episódio final, sobre Israel e o krav magá, é ainda mais simbólico no que se refere à essência do que é a luta. O krav magá não é praticado por esporte, não há campeonatos dele. Trata-se de uma arte marcial criada por um povo que passou um trauma recente e de uma brutalidade sem precedentes na história, de modo que esta modalidade objetiva somente a sobrevivência, exatamente como deve ser em um país cercado de inimigos e que enfrenta ameaças terroristas diariamente. Mais uma vez, temos aqui a luta explicando a lógica de toda uma sociedade e, mais uma vez, Lutas Ancestrais acerta em cheio dentro de sua proposta, trazendo-nos um documentário que, mais do que agradar aqueles que gostam de lutas, também conseguirá ensinar muita coisa a quem as esnoba ou estereotipa como coisa de gente violenta e burra.

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