Numa França pós-revolução, já lá pro século XIX, temos em tela a placidez de uma vida aristocrática de Madame de La Pommeraye, que tem como grandes preocupações a arrumação minuciosa de vasos dentro de seu palacete campestre e a recepção de um marquês galudo. Por mais ultrajante e sujo que essa descrição seja (e aqui me refiro à insuportável condição privilegiada de classe numa França polarizada), é disso que se trata, inicialmente, o filme. Sendo honesta, não passa muito deste universo limitado onde ricos não têm muito o que fazer e inventam questões a serem resolvidas.

O marquês de Arcis é o típico esquerdo-macho só que de época: ele acredita que a mulher é um ser independente, não vê com maus olhos a libertinagem feminina e acha que tudo bem ter pelos na perna (mentira). No entanto, é claro, usa a seu favor toda a teorização da liberdade, de forma que sai por aí passando o rodo pela aristocracia, plebe e puteiros com o argumento de ser levado por sua paixão. Na verdade o que passa é que quando a mulher deixa de ser um objeto desejado, já que a possui e conquista, ela deixa de ser também interessante. Homens e sua atemporalidade…

Fogo de palha ou amor verdadeiro?

É muito irônico pois o filme como um todo carrega um conflito comum demais até hoje: a velha história do “ele vai mudar por mim” e depois a quebração de cara e coração com a mascarada mudança, fruto de uma paixão passageira e inconsequente. Durante vários diálogos, não fosse o linguajar cheio de pompa e impessoalidade característicos da época, a sensação era de estar assistindo um filme de comédia romântica ou drama da contemporaneidade.

O fato é que o marquês fica enamorado pela madame por um tempo e a pobrecita cai na lábia do velho “um homem pode mudar pelo amor” até que fica claro que não, não pode (ou nesse caso aí, não mudou). Inflamada por não pelo fogo ter sido justificativa pra uma separação mas pela falta de honestidade da parte que lhe era tão intimamente confidente, seu amado, a mulher toma a decisão de dar-lhe uma lição. Vingança. Um prato cheio e frio degustado por uma mulher rejeitada.

Um olhar enchido por rancor.

Para isso ela conta com duas ferramentas essenciais para por o plano em ação, ambas mulheres, é claro. Uma já madura, a mãe. Outra ainda jovem, a isca perfeita para o garanhão. Daí pra frente o filme vira um misto de novela com drama e ora agrada, ora desagrada. O roteiro se mantem coerente e não conta com diálogos forçados, para meu alívio e a favor de uma boa nota para o filme. No entanto, o rumo da prosa mostra um misto de vingança justificada (afinal, o cara só usava mulheres por melhor que as tratasse) e pura dor de cotovelo (pois, afinal, foi ELA quem deixou de ser usada; as tantas vezes que ele fez isso não eram problema até então).

Por fim, acredito que essa intenção da história deixar um ar meio empoderador ou sei lá muito bem o quê falhou. Pintar uma mulher rejeitada arquitetando uma vingança que machuca também outras mulheres e que mostra o absoluto tédio dela mesma não é lá a melhor forma de provar um ponto. Mas, num balanço geral, o filme é esteticamente muito agradável e leve, e a obra como um tudo é uma massagem gostosinha nos olhos e ouvidos por sua trilha sonora clássica e vernáculo requintado em francês.

As duas peças no jogo de Madame.

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