Uma vida tediosa. Uma vida calculada, metódica. Uma vida sem graça do início ao fim do dia. Essa é a vida de Harold Crick , descrita por uma misteriosa voz que o segue e aparentemente comanda sua vida. Harold trabalha na Receita Federal, não se relaciona com quase ninguém, faz tudo sempre igual – até as ? vezes que escova o dente se repetem diariamente. Porém, um dia acorda e percebe que sua vida está sendo descrita por uma voz. E daí começa a busca pela seguinte pergunta: por quê essa voz me comanda? E ainda: será que essa voz realmente me comanda?

A partir dessa metáfora o filme nos constrói uma grande reflexão, de maneira sutil, de que nossas vidas têm se tornado um tanto chatas e robóticas – e que, embora o chamado “destino” seja incontrolável, temos uma parcela grande de responsabilidade sobre o que acontece ou não. No momento em que é anunciado uma interrupção em sua vida, e Harold se sente impotente e sem muita escolha, é que o personagem resolve tomar atitudes diferentes e que, se não sofresse a pressão de talvez não mais viver, não teria a coragem de fazê-las. O personagem só se permite encarar sonhos, antigas vontades e até medos quando encontra esta ameaça “imediata” – como é mesmo descrito – aos seus olhos. E não somos muitos de nós exatamente assim? Resolvemos, por vezes, investir nas coisas por impulso, paixão, movidos por um sentimento não-racional –

e muitas vezes esses investimentos dão bom frutos, acompanhados pensamentos póstumos como “e se eu não tivesse feito…”?

Em paralelo à essa metáfora, o filme se volta para a vida da narradora, que é a responsável real pela vida do personagem. A mulher narra a vida do Crick mas na verdade, como acontece diversas vezes com os escritores de forma geral, transparece a sua própria. Talvez por falta de coragem de encará-la, deprimida pela infertilidade de sua imaginação, ou de forma inconsciente, a autora se expressa através de seu personagem, inclusive a vontade de suicidar-se.

O que ela não esperava é que sua vida passaria a ser influenciada pela de sua criação. “Mais Estranho que a Ficção” mostra o inesperado e incalculável, os detalhes, mimos e essencialidades da vida. O filme mostra o maravilhoso e por vezes trágico da vida, enfim: como tudo podemos fazer mas, ao mesmo tempo, como nada depende de nós pra acontecer. O quanto de tempo perdemos por embarreiramentos sociais e que nós mesmos construímos, e o quão irônico tudo pode acabar sendo. Por fim, nos ensina a seguinte lição: que devemos viver, pois o inimaginável pode ocorrer a qualquer momento.

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