Como já falei aqui inúmeras vezes, eu sou um homem de 36 anos, solteiro, que nunca esteve casado ou chegou perto em algum momento de conversar a sério com qualquer parceira que tive sobre a possibilidade de ter filhos ou não. Este é um assunto, inclusive, a respeito do qual eu não tenho a mínima convicção do que quero. Quando meu irmão teve filhos, eu fui presenteado com um sentimento de amor incondicional e necessidade de proteger em um nível só rivalizado com o que sinto pelos meus pais e, imediatamente, eu tive a certeza ofuscante de que queria mais daquilo para mim no futuro. Contudo, com o passar do tempo e com este amor que sinto por eles só crescendo, minha admiração absoluta pelo meu irmão e minha cunhada que, mesmo sendo membros típicos da classe média brasileira, se dispõem a criar os 3 sem a ajuda profissional de uma babá me fez repensar muito esta certeza de que queria ter filhos. Apesar de inegavelmente recompensador, é um trabalho absurdo conciliar uma carreira e esta intensa vida familiar e eu talvez seja um pouco egocêntrico demais para estar disposto a me colocar em um segundo plano.

Feito este desabafo, Mais Uma Chance é um filme que segue boa parte dos clichés do cinema independente americano – de onde sua diretora, Tamara Jenkins, despontou com uma indicação ao Oscar de direção com “A Família Savage” – para contar a história de Richard (Paul Giamatti) e Rachel (Kathryn Hahn), um casal de seus 40 e poucos anos que está há anos tentando ter filhos sem sucesso e seu suplício diário no ambiente altamente depressivo e opressivo das clínicas de fertilidade, bem como de suas interações que, por mais felizes que pareçam ser, carregam sempre uma melancolia inerente.

O trabalho que a diretora, que também assina o roteiro, faz é notável. Ela consegue passar a realidade de um casal claramente feliz um com o outro, mas cuja felicidade não preenche a lacuna que uma criança ocuparia na vida deles. Seja essa lacuna oriunda uma pressão da sociedade ou não, o fato é que ela existe. Há inclusive um breve momento de crítica ao movimento feminista aqui quando Rachel reconhece sua condição de animal do sexo feminino e, portanto, precipuamente carente de uma cria, carência esta que vem sendo desconstruída por vertentes do movimento que entendem que isso não passa de uma imposição da sociedade sobre a fêmea, o que não deixa de ser verdade, mas é uma simplificação criminosa de milhões de anos de evolução.

Ambos são pessoas intelectualizadas, estudadas e artísticas, bem aquele estereótipo de gente meio hipster que vemos em quase 100% dos dramas passados em algum lugar de Nova Iorque. E esta escolha se mostra acertada, pois até mesmo esse tipo de gente desconstruída, que tem uma foto artística de uma mulher nua e arreganhada pendurada em sua sala, ainda é demasiada humana, o que permite transmitir com competência esta mensagem de que, no fundo, todos temos anseios e frustrações semelhantes.

Trata-se de uma obra que vai além da mera busca de um casal por um propósito na tradicional figura da prole, mas que também explora o quanto a experiência humana, quando compartilhada, nos une inexoravelmente, mesmo quando pela dor, pela tristeza e pela frustração. Richard e Rachel se agarram um ao outro porque compartilham um sentimento verdadeiro de amor, mas, mais que isso, sofrem uma situação horrível juntos há tanto tempo e nela, de alguma forma, acham forças para continuar.

Giamatti e Hahn apresentam um retrato forte e visceral deste casal unido pela frustração e são apoiados por um elenco excelente, com destaque para o subestimadíssimo e sempre excelente John Carrol Lynch, tudo para dar vida a um roteiro de diálogos bem urdidos, ainda que intelectualoides demais, abrilhantado por uma direção firme, que sabe conduzir o filme para onde quer.

A Netflix, a exemplo do que fazia com mais vigor em sua infância e que repetiu recentemente em “Gente de Bem“, mais uma vez investe no filão do cinema independente americano e acerta com esta poderosa história sobre amor, maternidade/paternidade e as frustrações de se estar vivo.

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