Diante da globalização seletiva dentro do Cinema que vivemos, que destaca produções americanas e, por tradição, europeias (mas dentro dos países mainstream), o simples anúncio de uma estreia sul-africana chama atenção dentro do catálogo da Netflix. E essa reação de curiosidade se estende, é claro, ao supostamente subentendido compromisso de uma produção vinda da África do Sul TER que abordar a problemática racial. Assim, querendo ou não, mais uma vez o pensamento volta para o descrito inicial: a predominância de influência das produções grandes – não importando o quanto enfadonha – ou magistralmente tratarem da temática da diáspora e, consequentemente, do racismo. E aí, qual vai ser desse filme, afinal?

Antes de analisar a obra, quero dizer que para minha felicidade o roteiro é escrito com uma habilidade de se admirar por Kagiso Lediga, que não só é a mente por trás de uma história palpável e inteligente, como também a dirige e protagoniza na pele do professor universitário Max. A partir de escolhas cirúrgicas, Lediga coloca vida num personagem que carrega contradições intrínsecas à sua realidade: a de um negro de classe média alta e, portanto, privilegiado. Um negro privilegiado. Sim, essa junção de palavras é contraditória pela historicidade carregada pelo negro, que o coloca em lugares subalternos há séculos. No entanto, no momento em que ele ascende socialmente à uma classe que repetidamente explicita redomas para que isso não aconteça, ele se vê numa interseção entre dois grupos. E a inabilidade de lidar com o choque entre privilégios brancos e lugar de fala negro é impecavelmente colocada no filme, sem forçação ou superficialidade. Brilhante!

Além do debate sofisticado, mas sem cair no diletantismo francês de ostentar conhecimento a cada segundo, o filme coloca em questão também o que se refere ao amor. Max (Kagiso Lediga) e Sam (Pearl Thusi, muito linda, meu deus do céu) formam um casal aparentemente maduro e estável. Conforme o filme vai anunciando seu clímax, percebemos que o ponto em comum em tudo que começa a desandar na vida de Max – inclusive em seu relacionamento – acaba sendo a necessidade que o personagem encontra em problematizar tudo a sua volta. Associo isso à incapacidade completa de conciliar seu discurso anti-colonialista e de resistência negra, por sua intelectualidade e negritude, com o fato de que ele está ali, vivendo uma vida burguesa caricata em que gasta mais de mil conto num restaurante. Um esquerda de gaveta, no fim das contas. Apesar de, sem dúvida alguma, uma série de problematizações por ele expostas serem válidas – como atestar que sua própria realidade, enquanto negro grã-fino e reconhecido no meio acadêmico, é apenas um microcosmo onde a democracia racial é conveniente e funciona com fluidez.

“‘Racializo’ tudo por que sou sul-africano; é minha cultura.” Tá certo mas seja mais coerente, parça…

Outro acerto do filme quando mostra a fragilidade de Max em seus discursos é no sentido sexista. Um cara desses, conscientíssimo, escritor respeitado dentro de seu ciclo social, deixa preservado, por outro lado, uma desenvoltura bastante machista diretamente relacionada a figura de um homem ultrapassado que não mede esforços para assegurar possessão de sua fêmea. Sam, essa mulherzona da porra – que, além de belíssima, é independente, confiante e inteligente – se mostra muitíssimo mais evoluída que o metido a sabichão do marido; ela segue plácida e coerente consigo mesma o filme todo. É uma mulher burguesa? É sim. Mas não fica pagando de desconstruidona enquanto bebe vinhos e champanhes de mais de 3 dígitos. Na verdade, ela é muito mais sensata que ele até na hora de administrar as finanças. Arrasou.

Por fim, em meio a essa crise causada por ego e insegurança de Max, ele se vê obrigado a enfrentar seus demônios diluídos aqui e ali diante da presença de Heiner (Andrew Buckland), um escritor sul-africano branco, bem sucedido e que fala merdas do tipo “eu saí daqui por que queria desfrutar da minha branquitude em paz” quando questionado sobre seu exílio do país. Apesar de intragável de imediato, a figura de Heiner desencadeia uma comparação que, se de início é sem nexo, depois se mostra razoável: será que os dois não têm algo em comum? (spoiler: sim, ambos são babacas). Mais uma Página faz o excelente serviço de mostrar o que tem por trás de um homem, seja relacionado a sua cor, ideologia, profissão, relação amorosa ou simples existência: a contradição. E é a partir do esclarecimento das fronteiras entre a teoria e a prática, a revolução e o comodismo e o humano e a falha que o filme legitima seu sucesso.

Tira o olho da minha mulher se não eu te METO A PORRADA, Max fala em linguagem acadêmica. O que fica mais ou menos assim: “Dr. Heiner, acho que você está cometendo um equívoco em sua relação próxima com minha esposa. Podemos organizar um debate para esclarecer isto melhor?”

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