Masaba Gupta é uma das mulheres mais famosas da índia. Filha de Neena Gupta, uma veterana e respeitada atriz, aos trinta anos, a estilista e dona da marca House of Masaba é uma das maiores digital influencers das terras abençoadas por LordE Ganesha. Agora, sua carreira dá um novo e mundial passo com a estreia de Masaba Masaba, série ficcional inspirada nos eventos da vida da moça e estrelada por ela e sua mãe nos papéis de… elas próprias. A gente ama uma metalinguagem, né não?

Para começo de conversa, já vamos deixar claro que a série não é nenhuma virada genial na história da dramaturgia ou um novo tratado definitivo sobre as relações humanas. Não. Leve, ela flerta e, por vários momentos, se atraca com clichês. Seus episódios de trinta minutos não estão dispostos e nem vão ser um gêiser de epifanias.

Mas por que começar falando dessa característica menos nobre dela, senhor crítico? Por um motivo simples, leitor Metafictions: para sobrar mais espaço para destacar as suas outras – e maiores – partes legais.

A edição, por exemplo, é muito espertinha. Em vários momentos a narrativa é guiada pelo frenesi e agilidade do formato de stories do Instagram, num efeito bem legalzinho e que contribui para deixar bem marcado o ethos do programa, uma reflexão sobre a sociedade de imagem em que vivemos, seja no Rio, Nova Iorque ou Mumbai. Passando-se majoritariamente numa maison fashion, é obvio que figurinos e direção de arte também mandam bem demais. Vale destacar o quanto o uso das cores aparece de uma forma deliciosa, marcante, remetendo o espectador ocidental às imagens mais familiares de Bollywood, mas também indo além delas e mostrando uma Índia mais real e contemporânea.

A Netflix também faz desta mais um exemplar de um dos seus investimentos mais valorosos: levar para o mundo uma produção audiovisual produzida fora dos Estados Unidos. Que gostoso é ouvir os diálogos em hindi e experimentar o estranhamento dos sons quando misturados com frases em inglês na mesma fala. Valeu, Dona Netflix, por marcar mais um ponto a favor da diversidade. Diversidade esta que, em Masaba Masaba, ganha contornos mais interessantes ao apostar também na variedade de corpos. A série mostra como corpos diferentes do padrão socialmente imposto, tanto em idade, cores e formas, também podem ser- e são – bonitos e sensuais.

Outro bom ponto é o equilíbrio entre humor e drama na produção. O roteiro aposta em uma linguagem no meio do caminho, mais crível, que se afasta do pastelão e do vale de lágrimas. Outro acerto do texto é o jogo metalinguístico ao flertar com o real e o ficcional na vida da Masaba e da Neena que vemos na tela. Imagino que para um espectador indiano esse jogo deva ser bem mais interessante, mas o texto consegue fazer com que mesmo aqueles que nunca ouviram falar delas se interessem por suas vidas.

E é nisso que emerge o mérito maior da série. Masaba Masaba apresenta personagens e questões com as quais nós, espectadores, conseguimos criar vínculos. Nesse ponto, apesar de trafegar por um universo similar, da moda, da imagem, do audiovisual, ela se firma como um anti-“Sex and the City”, ao trazer personagens que parecem mais de carne e osso do que só de imagem e estilo.

As questões levantadas também são muito pertinentes e ecoam principalmente com as espectadoras do mundo todo. Ao discutir questões femininas, como a ditadura da imagem, a vida profissional, o voltar ao mundo dos relacionamentos depois de um divórcio, o preconceito contra as pessoas mais velhas, a relação entre mães e filhas, a série cria laços de identificação com quem a vê.

Masaba Masaba é, no fim, uma celebração dos erros e da jornada que, ao seu modo, cada um vive nesses tempos doidos. Não inventa a roda, não te deixa de olhos vidrados, mas faz pensar e é uma delícia de ver.

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