A Paixão segundo G.H. é a obra prima de uma das maiores escritoras de todos os tempos, a essencial Clarice Lispector. O livro é o fluxo de consciência de uma personagem mergulhada em si, jogada para a maior epifania da sua vida a partir da visão de uma barata. Em um dos seus vários momentos que doem na alma (doem mesmo, meu analista que o diga), G.H. solta essa bomba no leitor:

“O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

golpe da graça: a paixão. Era só nele que eu pensava após assistir Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino que, tal qual o romance clariciano, merece o epiteto de obra prima. Mais que ser apontado como uma das melhores produções da temporada, ele é um dos melhores filmes dos últimos tempos.

O ano é 1983, o lugar é o belíssimo norte da Itália. Elio (Timothée Chalamet) é um jovem de 17 anos, extremamente inteligente e talentoso. Filho de um importante especialista em arte greco-romana (Michael Stuhlbarg, em atuação preciosa), ele será atingido em cheio pela descoberta do amor e da paixão com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um homem de vinte e poucos anos que vem estudar com o eminente professor.

Uma máxima do meio cinematográfico diz que se pode até fazer um filme ruim de um bom roteiro, mas que é impossível se fazer um bom filme a partir de um roteiro ruim. Esse risco a nossa obra não correria, pois que seu roteiro é uma das maiores realizações da produção recente. O livro de  André Aciman, no qual ele se baseia, foi adaptado pelo estreladíssimo James Ivory, que conta em seu currículo com apenas 3 indicações ao Oscar de melhor diretor e um prêmio de conjunto da obra dado pelo sindicato dos diretores dos Estados Unidos, entre outros. E que roteiro, senhores. O maior dentre os muitos de seus méritos é ter criado um texto que é essencialmente cinematográfico. Embora baseado em literatura, Ivory cria uma história que ganha a força que tem enquanto imagem de cinema. É um roteiro milimetricamente pensado e arquitetado. Deem um Oscar para esse homem.

Nos aspectos técnicos, também, Me Chame Pelo Seu Nome é marcado pela excelência. A fotografia de Sayombhu Mukdeeprom consegue potencializar as lindas paisagens italianas e transformá-las em elementos da narrativa, da mesma forma que ilumina os espaços fechados como se fossem reflexos da vida interior das personagens. Figurinos e direção de arte se apoiam numa simbiose extremamente bem urdida, explodindo na tela ao som de uma das mais interessantes e bonitas trilhas sonoras. E a edição é uma master class do quesito. Ela consegue fazer com que o ritmo da obra seja totalmente ditado pelas imagens e vai além ao obrigar o espectador a prazerosamente conviver com uma outra noção rítmica: o filme não é nem rápido, nem lento. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme em ritmo poético.

Poesia que se instala totalmente na química de seus protagonistas. Timothée Chalamet e Armie Hammer funcionam juntos de forma espetacular. O primeiro encarna toda a profundidade, toda a segurança insegura dos adolescentes inteligentes, a explosão de tesão aos 17 anos e os pavores e delícias da descoberta do amor (e dos horrores que chegam junto). É, sem dúvida, uma das maiores atuações do ano. O segundo monta um Oliver que é o homem mais velho, muito bonito, seguro, mas que, como qualquer humano, desmonta frente ao desejo incoercível dos sentidos que a paixão desperta. E como eles conseguem ser eróticos juntos!

Aliás, o erotismo é lindamente celebrado em cada frame  do filme. Me Chame Pelo Seu Nome é um dos filmes mais eróticos de todos os tempos. Fugindo da estratégia de vários filmes de temática LGBTI, que é escamotear o aspecto sexual para tornar a narrativa mais palatável ao grande público, a produção em questão festeja o sexo enquanto afirmação da vida. Ele se fundamenta de forma erótica, com imagens eróticas, com paixão (e tesão) em estado puro.

Por fim, é preciso elogiar o mais que competente trabalho do maestro disso tudo. A direção de Luca Guadagnino é primorosa e há de ser lembrada por muito tempo. Se o diretor é o dono do olhar em um filme, Guadagnino possui um dos melhores pares de olhos do cinema. Sua direção, ao mesmo tempo que ecoa visualmente os melhores momentos de mestres como Visconti e Pasolini, consegue ser totalmente única, autoral. Ele entra no grupo daqueles diretores que, pelo menos um vez na carreira, conseguiram elevar mais que um filme, elevaram a experiência e a instituição Cinema.

Me Chame Pelo Seu Nome já nasce clássico. Belo, sem ser pomposo. Profundo, sem ser chato. Romântico, sem ser meloso. Excitante, amedrontador, triste e feliz. Como a paixão. Ele é o golpe da graça que o Cinema vinha pedindo.

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