Por vezes, começo a ter a sensação de que repito palavras e mais palavras (já antes escritas milhões de vezes em outros textos meus) quando inicio uma nova resenha. A denúncia à minha falta de criatividade, nesse caso, muitas vezes é resultado da obra sobre a qual me debruço. Diversos são os filmes que trazem consigo um mesmo padrão, uma mesma série de cenas, desenvolvimento de trama e conflitos. Fica, portanto, muito difícil escrever algo tão diferente sobre um título tão igual. O desabafo surge quando da análise de mais um filler de comédia romântica. A bola da vez é Meu Eterno Talvez.

Sasha (Ali Wong) é uma chef de cozinha muito balada, abrindo vários restaurantes nos principais pontos dos Estados Unidos, atravessando os extremos (de São Francisco a Nova Iorque). Em sua infância, tinha um amigo inseparável, Marcus (Randall Park), de origem asiática como ela, com quem perdera contato ao longo dos anos. Anos depois, o destino os coloca lado a lado uma outra vez e o contraste entre suas vidas é enorme: ela alcançara seu sonho; ele se mantivera no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, não dando um passo à frente em direção ao que poderia almejar. Além disso, o reencontro não pareceu muito confortável, pois a posição de cada qual erigira um muro invisível e aparentemente intransponível. Porém, os tijolos segregadores começam a cair, quando antigos sentimentos voltam a aflorar.

A parede entre eles.

É necessário mesmo ver o filme para saber o que vai acontecer? Não, não é. Mas muitos são os filmes que repetem narrativas, nos quais não há surpresa alguma, só que conseguem destaque. Isso porque trazem algum aspecto que os eleva a um patamar maior do que a mera repetição da repetição. Meu Eterno Talvez até poderia ter passeado em lugares menos comuns, visto que traz em seu protagonismo personagens asiáticos. Apesar disso, o discurso do filme pontua, ainda que sutilmente (às vezes, nem tanto), o preconceito inerente à cultura norte-americana: há um momento em que a personagem Sasha dá uma esculachada nos hábitos dos chineses em plenos Estados Unidos. Fora isso, passado em São Francisco, local onde supostamente nota-se maior quebra de padrões sociais e culturais, permitindo uma relação muito maior entre culturas, o filme é quase 100% de casais que mantém uma relação estritamente cultural, não dando qualquer exemplo (a não ser por um muito breve) de relacionamentos interraciais. Outro ponto muito presente na maioria das produções americanas.

Excetuando-se a participação especial do ultra-carismático Keanu Reeves, fazendo papel dele mesmo (mas permitindo-se ser zoado, já que sua construção em nada se assemelha com sua persona conhecida publicamente), que traz um dos momentos mais agradáveis do filme, todo o resto é um “chover no molhado” que não desenvolve. É bonitinho, como tantos outros são; traz a mensagenzinha, como quase todos trazem; e tem seus momentos de gags como todo e qualquer outro tem. Nada além. O diferencial talvez seja até a glamourização patética da figura do ser bem-sucedido, o qual endossa ainda mais a visão norte-americana de que quem não está dentro desse padrão imposto é um loser.

A quebra do muro invisível.

Meu Eterno Talvez é, portanto, a repetição da repetição, não buscando atravessar seus lugares comuns ou seguir em rotas pouco exploradas pelos seus “irmãos de gênero”. Mais do que isso, pode ser visto como a demarcação do que há de mais patético na cultura americana: preconceito, segregação e valorização da condição social. Se você espremer esse título, é isso que sairá de lá.

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