“O que há do seu delírio em mim, mãe? De que modo a morte nos aproxima ou a lucidez nos afasta? O que há de mim nas tuas rugas, nas tuas poucas memórias ou no teu cansaço? Onde estou na névoa da sua mente, mãe? Eu estava o tempo todo do teu lado! Mas eu não era nada. Eu era a cuidadora. Uma parte nebulosa da sua doença. Eu não era…”

Madalena, Alice, de Bia Barros, livro do qual o trecho que abre esta crítica foi retirado, foi uma das leituras mais perturbadoras do ano para mim. Nele, o tecido esgarçado da mente de uma mãe idosa que se afunda na demência é exposto na perspectiva da própria senhora e na da sua filha, obrigada a cuidar dela e dos choques de sua condição. Nesta semana, revisitei o impacto interior desses temas ao assistir o excelente Meu Pai, de Florian Zeller, baseado em peça de sua autoria.

Aos 81 anos, Anthony (Anthony Hopkins) mora sozinho em seu apartamento em Londres e atrapalha a vida de sua filha, Anne (Olivia Colman), ao recusar todos os cuidadores que ela contrata para ajudá-lo. A situação agora é ainda mais problemática, já que, aparentemente, Anne vai se mudar para Paris para viver com um novo amor e terá de se afastar do pai. Ah, por que eu disse “aparentemente”? Porque situações estranhas levarão Anthony (e nós) a questionar sua sanidade, suas relações e até mesmo a textura da própria realidade.

A partir daí, leitor Metafictions, Florian Zeller constrói um dos mais delicados filmes dessa safra tão inconstante do mundo em pandemia, merecidamente indicado a seis Oscars (nesse que será o Oscar mais estranho da História).

Uma produção que une Anthony Hopkins e Olivia Colman já mostra que não está vindo para brincadeiras. E os dois (como sempre) dão o nome. Colman traz uma Anne que sofre o golpe de cada derrocada do pai e que, ao mesmo tempo, assume que a velhice (e o cortejo de horrores que pode vir com ele e, no caso de Anthony, vem forte) é o alerta da finitude e das despedidas, mas que não apaga as mágoas e as conversas que não aconteceram. Assim, junto à possível decrepitude do pai, cada expressão de Colman na tela mostra que Anne também está repassando a história que foi e, mais ainda, a história que, entre os dois, poderia ter sido.

Já Hopkins domina cada uma das cenas e brilha em cada segundo. Sua atuação chega a ser perturbadora de tão esmerada. A confusão da personagem exsude em cada gesto, cada modulação de voz e, acima de tudo, de cada olhar do veterano e magnífico ator. É porradaria máxima no estômago. Cada frame do mestre é um corte e um abraço no espectador.

Mas, ainda que contando com dois astros desse quilate, Meu Pai não é daqueles filmes que se escora apenas em performances. Tirando uma pequena sensação de “incompletude”, talvez causada pelo distanciamento entre plateia e ação, ausente no teatro, mas que, no cinema, exige que a produção se apoie em mais elementos para quebrá-lo, a produção é completamente acertada e orgânica.

O roteiro sensível se apoia tanto na força das palavras quanto no expediente cinematográfico de deixar que a imagem fale sem falar. Isso se amplifica na direção preciosa de Zeller, que, apoiada em uma fotografia delicada e poderosa, constrói uma narrativa de corredores, cômodos, interiores, fazendo com que a claustrofobia do espaço seja o reflexo dos meandros opressivos da mente do protagonista. Há que se destacar a maneira como a direção de arte e os cenários corroboram para esse efeito.

Se este texto começou com literatura será com ela também que ele será encerrado. A beleza e o choque de Meu Pai chegam, tanto na forma quanto no conteúdo, com a beleza e o choque a que Bandeira alude em O Último Poema:

Assim eu quereria o meu último poema./Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais/Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas/Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos/A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.”

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