Antes de sair falando sobre o filme em si, vamos recapitular alguns pontos acerca do projeto americano de remake da trilogia Millennium, que passou a contar com 4 livros, sendo este escrito por outro autor, pois Stieg Larsson não estava mais vivo. Apesar de baseado em seus manuscritos, o novo autor não concordava com a construção da personagem principal da história, Lisbeth Salander. Inspirados pelo sucesso da obra literária e também das filmagens suecas (na qual a protagonista é encarnada pela maravilhosa Noomi Rapace), os americanos decidiram investir na releitura, tendo em David Fincher o regista para as sequências. A menina com a tatuagem de dragão, neste caso, foi interpretada pela não menos espetacular Rooney Mara.

Muito provavelmente não obtendo o retorno esperado na produção de 2011, demoraram aí seus 7 anos para retornar. Mas – pasmem! – não com a segunda história, mas com a quarta (aquela ali, que nem fora escrita pelo autor original). Uma amiga (super fã dos livros) leu que os americanos optaram por adaptar este livro, pois o orçamento para ele seria menor e eles gostariam de criar um laço maior entre espectador e a história antes de investir nas continuidades principais. Dessa forma, o diretor Fede Alvarez trouxe um elenco completamente novo, sem aproveitar qualquer coisa da produção de Fincher. Quando perguntado o porquê de Rooney Mara não continuar na pele de Lisbeth Salander, o amigo soltou a pérola abaixo!

“Dizem que 50% do trabalho de um diretor é o casting. Se eu usasse o (maravilhoso) elenco de Fincher, eu não estaria fazendo metade do meu trabalho”.

Parece-me um tanto quanto evidente que a besteira que ele falou (porque é muito óbvio que 50% do trabalho do diretor NEM UM POUCO se reduz à escolha do elenco – mesmo porque algumas escolhas são demasiado óbvias, não tendo como “fugir”!) é uma desculpa para a real justificativa: Daniel Craig cobrara muito e o investimento não permitia sua participação no elenco. Dessa forma, podemos concluir que a escolha por Claire Foy, no lugar de Mara, deve-se, provavelmente, por assunto semelhante. Tendo dito isto, seguimos à análise do filme.

Apesar do conturbado cenário apresentado no presente texto, ao ver que um dos roteiristas é Steven Knight (a brilhante mente por trás de “Locke” e “Peaky Blinders”) a esperança retomara seu rumo e pensei – por um momento – que as patacoadas (ou tentativas de justificativa) de Fede Alvarez poderiam ser sufocadas pela presença firme do autor supracitado. A nova história da garota com tatuagem de dragão se passa após um hiato – a ser contemplado na terceira história – de sua relação com o jornalista investigativo Mikael Bloomkvist (Sverrir Gudnason), editor-chefe da revista Millennium. Lisbeth procura o amigo após se ver no meio de um fogo cruzado entre a Inteligência Americana e terroristas russos e suecos, fazendo-a revisitar memórias há tempos confinadas em algum lugar perdido de seu afeto. Tudo porque ela hackeara um programa que permitia controlar armas de grande poder de destruição, a pedido do autor da tecnologia, que não mais estava à frente do projeto. A velha história do “eu criei algo horrível e percebi depois, mas não estou mais no controle disso e preciso destruí-lo”.

Um dos raros momentos de Lisbeth sendo Lisbeth.

Esse enredo resulta naquelas tramas de filmes de espionagem, contando com a genialidade de Lisbeth, que consegue hackear qualquer coisa a partir de qualquer coisa, e seu jeito bad ass de ser, assumindo toda e qualquer briga com todo e qualquer grandalhão que atravesse seu caminho. A direção de Fede é segura e algumas opções estéticas são muito bem-vindas para a história, tornando o filme agradável aos olhos, imageticamente. Mas esse preciosismo em alguns momentos não consegue maquiar aquilo que, a priori, era a minha fonte de esperança: o roteiro.

Tirando a sequência de abertura e 10 ou 15 minutos na conclusão, nada temos sobre Lisbeth Salander em si. E o que passamos a saber dela era o que já sabíamos a partir das outras histórias. Usualmente, digo aqui em minhas resenhas que um passo firme para um bom filme é a construção de um grande personagem. Em Millennium, o evidente destaque de todos os contos é a menina Lisbeth e seus conflitos internos que ajudaram a formar esse invólucro que mescla uma menina frágil com uma mulher fortíssima, inabalável dentro de seu universo de escombros sentimentais, que foram usados para edificar essa fortaleza intransponível. No entanto, a profundidade de sua persona é deixada de lado em A Garota na Teia da Aranha, sendo o melhor de toda a narrativa subutilizada de modo quase proibitivo.

Lisbeth… ou uma espiã qualquer.

Resta, portanto, muito pouco, quando o elemento principal é relegado à segundo plano, focando muito mais em uma história já vista em tantas outras oportunidades. O sedutor da saga Millennium é única e exclusivamente Lisbeth Salander e se você opta por não dar atenção a ela, sua história corre o risco de balançar no fio da navalha, dando ao espectador nada muito além do que ele já está acostumado.

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