No último episódio da primeira temporada da série original Netflix, Mindhunter (cuja crítica da 1ª temporada pode ser lida aqui), ficamos com a impressão de que, após o diálogo que dá origem a nomenclatura serial killer, o estudo da psicopatia criminal de tais assassinos ficaria mais sério, tendo sua repercussão potencializada nos próximos anos. No entanto, é possível perceber que o clima na UCC (Unidade de Ciência do Comportamento) do FBI fica bastante tenso por razões de desconfiança entre os agentes e gera-se a dúvida se o projeto será interrompido ou não, uma vez que a linguagem usada nas entrevistas por Holden (Jonathan Groff) e sua proximidade com os presos são questionadas e conseqüentemente, ameaçam a empreitada. Além disso, a última lembrança que temos do agente Ford, cuja carreira estava em ascensão até então, é do seu ataque de pânico no mesmo hospital onde Edmund Kemper (Cameron Britton), primeiro assassino em série entrevistado, está se recuperando de uma tentativa de suicídio e o confronta com a justificativa de não ter recebido resposta às suas cartas, vale lembrar também que o agente do FBI foi dispensado pela namorada no dia anterior a esse evento. Muitas contas pra fechar e expectativas geradas, não é mesmo?

Tendo dito isso, a série que é baseada no livro Mind Hunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit, escrito por Mark Olshaker e pelo ex-agente John Douglas, ganha uma segunda temporada surpreendente, que apesar de oferecer um ritmo lento aos acontecimentos e explorar ainda mais os diálogos longos, traz uma avalanche de novos conflitos. Questões familiares, racismo e sexualidade são alguns dos temas expostos na série. Apesar da gravidade dos assuntos, a abordagem utilizada é leve e dá profundidade aos personagens, o que nos faz desvendar a personalidade de cada um e nos instiga a assistir até o fim. É uma temporada que equilibra o foco tanto na mente e no comportamento dos serial killers quanto na individualidade dos integrantes do grupo que os estudam. Papéis que não tinham tanta voz e relevância, como Nancy Tench (Stacey Roca), esposa do agente Bill, e o detetive Gregg Smith (Joe Tuttle) crescem ganhando agora mais espaço e seus anseios são colocados em pauta.

Iniciamos o primeiro episódio com a clareza de que Holden Ford não é mais a estrela dessa ópera. A UCC agora tem um novo diretor, Ted Gunn (Michael Cerveris), que prega ter credibilidade na equipe e concede carta branca aos instintos de Holden, sem que ele saiba que seus colegas de trabalho, Bill Tench (Holt McCallany) e Wendy Carr (Anna Torv) têm a nova função de observá-lo de perto a fim de que ele não tenha outro ataque e, obviamente, não “ultrapasse os limites”. Estão todos aparentemente empolgados com a quantidade de novos recursos oferecidos à unidade. O que antes ficava mais no plano teórico se transforma em constante ação no intuito de que resultados sejam entregues em prazos mais curtos, porém, o surgimento de outras questões pessoais faz com que os membros da equipe se desgastem e se sintam perdidos.

Bill começa a viver um drama em seu casamento. Sua esposa, ao se sentir deixada de lado e sobrecarregada, passa a questionar o excesso de viagens em paralelo à necessidade do filho de ter um pai mais presente. O filho de sete anos do casal inicia um tratamento psicológico após presenciar e omitir o assassinato de uma criança, o que desencadeia o ápice da crise matrimonial. Nancy se culpa pelo comportamento do filho e Bill questiona a adoção do menino enquanto faz malabarismo entre viagens para exercer a paternidade. Wendy por sua vez, que vinha se mostrando forte e determinada, destacando-se na convivência diária de um ambiente limitante e conservador, passa por momentos de insegurança e vulnerabilidade em sua vida pessoal. A agente se vê com dificuldade de deixar claro o que realmente quer e isso compromete suas atividades de trabalho. Ao encontrar uma paixão, ela inicia um processo de reflexão e passa a enxergar a sutil necessidade de se impor.

Em meio a investigações detalhadas e entrevistas com criminosos, é difícil dizer qual o ponto mais alto da série. Porém, o caso dos assassinatos ocorridos na cidade de Atlanta, Georgia, entre 1979 e 1981, por se tratar de vítimas afro-americanas, sendo a maioria crianças, ganha mais ênfase que os novos criminosos apresentados durante a segunda temporada, prolongando-se por mais da metade da série e valorizando a desconfiança e falta de crença na justiça por parte das famílias negras em foco. Fica evidente mais uma vez como relações de poder associadas a interesses políticos-econômicos conseguem abafar a identidade de um ser humano.  Os novos assassinos mostrados provêm de histórias reais e a escolha de um elenco talentosíssimo para tais personagens possibilita ao espectador uma experiência ainda mais intensa. A violência é apresentada com riqueza de detalhes e a interpretação brilhante dos atores vai muito além da superfície, de fato.

De uma forma geral a genialidade exibida nos nove episódios de Mindhunter está em mostrar a grandeza de quem e do que não pode ser abafado.

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