Muito distante do radar ou roteiro de viagens da maioria de nós brasileiros, a Polônia é um país que me encantou na única vez em que estive por lá. E o fez não por uma exuberância natural ou cultural, nem mesmo por edificações históricas reluzentes, tão comuns em cidades europeias. A Polônia é um lugar de resistência e memória. Memória de um lugar com História profundamente triste, um país que deixou até mesmo de existir em alguns momentos, partilhado, invadido, bombardeado e massacrado. E que sofreu mais do que qualquer outro as atrocidades dos nazistas contra o povo judeu. É só pensarmos que filmes clássicos sobre o Holocausto, como “A Lista de Schindler” e “O Pianista”, se passam nesse país, que também abriga Auschwitz. Em determinado momento em um passeio por Varsóvia, tendo meu amigo polonês Tádek como guia, ele parou e disse: “Nossa, acabei de me dar conta que só te contei desgraça sobre minha cidade.” E era a mais pura verdade.

O filme de estréia da atriz francesa Élise Otzenberger na direção é uma singela e quase contra-homenagem a esse país do leste europeu. Minha Lua de Mel Polonesa não é, contudo, um filme triste. Temos aqui, na verdade, um bom exemplar de filmes que divertem e emocionam na mesma medida, provando que é possível tocar em temas delicados de forma descontraída sem ser desrespeitoso.

Parece uma Lua-de-mel perfeita, não?

O filme conta a história de Anna (Judith Chemla) e Adam (Arthur Igual), um jovem casal parisiense de origem judaico-polonesa, que visitam pela primeira vez a Polônia para comemorar os 75 anos da destruição da comunidade de nascimento do avô de Adam. Enquanto ele parece pouco animado com a viagem, Anna está ansiosa para descobrir o país, que também é a terra natal de sua “Babusha” (avó polonesa). Ao contrário do que o título do filme sugere, o que eles passarão naquele país está longe de ser uma lua-de-mel e está mais para uma experiência catártica de pessoas em busca de si mesmas através da reconstrução um tanto atabalhoada de seu passado histórico.

Anna é uma mulher extremamente paranoica e insegura, que tenta o tempo inteiro imprimir um sentido para sua jornada. Isso passa por romantizar tudo que ela vê e sente naquele país, desde o frio insuportável até a língua que ela nada entende. Aos poucos, a paisagem desoladora e sua própria confusão mental irão se impor. Ela se sente muito polonesa, mas até o prato típico servido no restaurante lhe é estranho. Ela se sente num casamento super judeu, mas seu marido não resiste à uma boa carne de porco. Nada nessa sua busca parece minimamente coerente com a realidade que ela vive e com sua bagagem histórica. Isso a fará entrar em conflito com seu marido, que não parece nada confortável com a situação.

Mamãe veio te salvar…

No entanto, este filme que parecia querer contar o conflito entre marido e mulher toma outro rumo com a chegada inesperada da mãe de Anna, Irene (Brigitte Roüan) ao país para participar da celebração judaica. Ela irá, de certa forma, dar algum sentido à busca da filha, ao compartilhar sua história pessoal com “Babusha”, a matriarca judaica da família. É Irene, também em busca de sua identidade tardia na terra natal de sua mãe, que trará a serenidade tão almejada pela filha Anna. Em uma comovente cena, ao perceber que a casa em que Babusha cresceu tinha sido destruída dando lugar ao mato já crescido, ela diz: “Nunca perguntei nada a Babusha. É como se não tivesse permissão para fazê-lo. Ela estava cansada de ser judia, de ser polonesa. Ela queria ser uma francesa de verdade “. Essa fala demonstra de forma sublime o quão dura fora a vida de seus antepassados e que não há nada de muito romântico nisso. História e memória podem ter um peso insuportável no presente.

Minha Lua de Mel Polonesa é uma doce prova de que o cinema ainda é capaz de imprimir alguma doçura e originalidade a um assunto tão encruado e batido como o Holocausto Judeu. Não há nada de leviano ali, ao contrário, há de fato uma grande reverência e respeito a um país que tanto sofreu na Segunda Guerra e que hoje se vê às voltas com o recrudescimento de movimentos de extrema-direita em seu parlamento. Mais uma prova de que nós, enquanto humanos, não aprendemos nada.

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