Deus um dia disse a Adão e Eva: “Meus filhos, trago-lhes dois presentes muito especiais. O primeiro é o Pênis.” E Adão se pôs a saltar e gritar “Eu quero! É meu! Me dá! Me dá! Me dá! Eu pedi primeiro!” Deus olhou para Eva e ela, com um olhar surpreso, concordou com um aceno de cabeça. Deus, então, deu o pênis a Adão que, feliz como jamais esteve, saiu correndo pelo Paraíso, mijando em tudo o que via. Mijou as árvores, mijou os rios, mijou as flores e as rochas. Abanou aquele pinto por todos os cantos do Éden enquanto Deus e Eva o olhavam estupefatos. Eva receosa com o que lhe esperava, perguntou a Deus: “Então, Pai, qual o segundo presente?” Deus suspirou e, resignado, respondeu: “O Cérebro.”

Tal anedota não está na Bíblia, mas toda vez que eu observo a maneira imbecil como os homens se comportam, sinto que ela é uma dessas passagens perdidas do evangelho. Sim, também sou homem e é por isso mesmo que me envergonho com a mediocridade daqueles do meu gênero. Dentre todos os povos do mundo, parece-me que os Estados Unidos da América foram criados com o objetivo de provar que tal piada é verdade. Talvez não todos os homens americanos, mas certamente aqueles envolvidos na cultura redneck. Pra quem não sabe, o redneck é o típico caipira branco americano, aquele que defende o porte de armas, a caça livre de animais, os monster trucks e a expulsão de imigrantes.

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Minha Primeira Caçada conta a história de Buck Ferguson (Josh Brolin, excelente como sempre), um típico redneck do sul dos Estados Unidos. Buck é uma celebridade redneck, famoso por seus vídeos sobre a caça do veado de cauda branca, tentando se reaproximar de seu filho, Jaden, depois de um doloroso divórcio. Acompanhado por seu cameraman, sidekick e “aspone” Don (Danny McBride), ele planeja levar Jaden a uma reserva e filmar o momento em que ele matará seu primeiro veado de cauda branca, convencido de que esse momento-de-macho haverá de reaproximar pai e filho e garantir sua posição de Alfa, ainda que a família tenha sido desfeita. Jaden, no entanto, é um desses moleques de 12 anos mimado pela mãe e pelo padrasto que, em especial, faz-lhe todas as vontades e passa-lhe a mão na cabeça em todas as suas falhas. Munido com seu iPhone e sua AR-15 com mira a laser – presente do padrasto – Jaden, mimado e preguiçoso, parte para o meio do mato com o brucutu-pai.

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O filme busca explorar o contraste entre aquele Americano old school que acredita que Deus, família e as armas de fogo vão nos salvar das frescuras do mundo moderno, e o Americano pós-Y2K, que come quinoa, treina parkour e faz DR com a namorada via WhatsApp, e até consegue criar situações engraçadas em que pai e filho colidem nessa disputa de gerações. No entanto o personagem de Jaden se torna chato muito rapidamente (muito mais chato do que um moleque de 12 anos normalmente é). Ele, ao mesmo tempo, tem todas as frescuras do filhinho-de-mamãe mimado e delicado, bem como aquela agressividade estereotipada de moleque que joga videogame, escuta punk rock e não vê a hora de metralhar tudo o que encontrar pela frente. A dinâmica estranha entre a ótima atuação de Brolin no papel de um caçador típico, daqueles que quer provar a todo momento sua virilidade dada por Deus (e, quem sabe, assim recuperar sua mulher que o pé-na-bundeou pelo start upper mauricinho) e o moleque insuportável da cidade (em uma atuação chata que dói) tem em Don uma tentativa de contraponto.

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Don é aquele camarada que acompanhou Buck em todas as suas aventuras – um Dr. Watson das florestas – oferecendo um alívio cômico para toda a grosseria típica de Buck e fazendo o papel de ponte entre as gerações. Don seria aquele cara que se aproxima de Jaden com facilidade, mostrando o que realmente falta no relacionamento de pai e filho, mas se perde em um excesso de piadas de sacanagem, daquelas de borracharia, e na eterna subordinação patética ao “líder da matilha”. No fim das contas a história é típica de uma sessão da tarde. Nem ruim, nem boa. Previsível e rasa mas trazendo o talento inegável de Josh Brolin para dar veracidade ao caçador tosco que não sabe como reconquistar o amor do filho. Poderia funcionar como uma aventurinha de amadurecimento, ou um drama-cômico de encontro de pai e filho, mas o excesso de piadas e referências “machinhas” no “grupo só de homens, porque deixamos as mulheres para trás para nos encontrarmos, novamente com nosso poder de homem”, medições de pau e quedas de braço entre Buck e Jaden, tornam o filme bobo demais.

O fim, pouco inspirado como não poderia deixar de ser, mostra que, não importam as adversidades, não importam os desafios, o homem macho está sempre pronto para esfregar sua piroca na cara da mãe natureza e não, nada vai mudá-lo.

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