Baseado em fatos, este filme original Netflix conta uma história passada no início dos anos 80 na Etiópia, mas é tão atual que poderia se passar hoje, quase 40 anos depois, não só na África como também na Europa. A tentativa do cineasta israelense Gideon Raff de contar ao mundo o drama de milhares de refugiados judeus etíopes é interessante, porém sua falta de profundidade associada à algumas contradições nos impede de alcançar uma possível catarse diante de um assunto tão sério. A temática abordada é cheia de camadas e bastante delicada, merecendo um pouco mais de atenção aos detalhes.

No final do século XX a agência de inteligência israelense Mossad inicia missões de resgate lideradas por Ari Levinson (Chris Evans). Ele escolhe a dedo uma equipe de pessoas de sua confiança, quatro amigos que largam tudo pra trás a fim de dar início a tal projeto, cuja base-fachada é um resort à beira do Mar vermelho, o tal Red Sea Diving Resort do título original (Resort de Mergulho do Mar Vermelho, em tradução livre).  Os momentos de tensão no longa-metragem são intercalados com situações que nos remetem a uma rotina de férias e podem ser facilmente traduzidos como dias tranquilos no paraíso. Cenas que mostram uma aula de ioga na praia e/ou um mergulho coletivo no fundo do mar cheio de corais, por exemplo, trazem um leve sorriso a nossa boca e tiram o foco dos dias de terror vividos no Sudão por grupos ora prisioneiros na esperança de um resgate, ora tomados de desespero e angústia por não saberem se sobreviverão à travessia e muito menos se chegarão vivos ao tão sonhado e prometido destino, Jerusalém.

Pode-se ressaltar um sutil apelo ao empoderamento feminino por meio da personagem Rachel (Haley Bennett). Ao dizer “somos todos refugiados” fica evidente que ela é uma mulher à frente do seu tempo, independente e que sabe o seu valor. Isso se intensifica a partir do momento em que ela escolhe estar num grupo com quatro homens em prol de algo maior. Nós a vemos em situações distintas mostrando que tem voz. Num primeiro momento reagindo a um assédio em seu ambiente de trabalho, deixando claro o direito que tem sobre seu próprio corpo e, mais tarde, quando precisa lutar com um soldado e matá-lo a fim de salvar centenas de vidas, reafirmando sua zero fragilidade, levando em consideração que o filme se passa num contexto onde mulheres são espancadas e mortas nas ruas por questões culturais.

Missão no Mar Vermelho não tem atuações espetaculares e seu gênero é um tanto indefinido. Apresenta poucas cenas de ação, tendo em vista suas duas horas de duração, e o drama apresentado não é suficiente para que o filme seja assim classificado. Existem fortes laços de amizade entre os integrantes do quinteto em ação, o que permitiria que essas relações fossem um pouco mais exploradas, até mesmo as dificuldades vividas por eles nesse período convivendo todos os dias no resort, além das missões de resgate. Faltou levar ao espectador a conexão que gera empatia. Sendo assim, o objetivo de Gideon Raff ao propagar a mensagem de quando você vir alguém sofrendo, não se cale acaba tento pouco impacto.

Fica apenas o registro informativo de que existem mais de 65 milhões de refugiados no mundo, algo que afeta a sociedade em larga escala, um assunto que merece ser tratado com humanidade.

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