Hollywood tem um histórico de adaptações de mangás assustador, derrapando a cada curva do processo de transposição de uma mídia para outra. Como você pode conferir em “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” e “Death Note“, ambos adaptados em 2017 (e com resenhas nos links), essas desgraceiras tomam emprestado a premissa e o título de suas obras originais e saem cagando o seu legado. Isso causa um efeito muito, muito negativo na forma como as obras originais – e aqui faço a ressalva que nem sempre o anime é original, muitas vezes ele já é uma adaptação de um belo mangá – são vistas por um público desligado da cultura oriental. Caso você tenha tido o desprazer de ter visto essas obras citadas, confira os Assistas! de cada uma delas (Death Note e Ghost in the Shell), que te introduzirão ao material fonte de forma mais honesta.

Os japoneses também parecem não entender muito bem como uma adaptação funciona e pecam exatamente no extremo oposto dos ocidentais. Enquanto um nega a essência do material original, o outro tenta recriá-lo exatamente igual, desconsiderando as nuances que cada mídia requer. Basta assistir o recente e terrível “Fullmetal Alchemist” para entender o que quero dizer com isso. Tudo que é essencial para a obra está ali e ainda assim ela não funciona, pois não tenho como achar crível e me imergir em um longa com figurinos, cabelos e expressões exatamente iguais ao anime com atores de carne e osso.

Eis que a NETFLIX, em parceria com a TV Tokyo, resolve produzir e distribuir internacionalmente não apenas um longa, mas uma série live-action sobre um dos melhores trabalhos nipônicos recentes tanto no mangá quanto no anime: Mob Psycho 100. Não há muito tempo, liberamos aqui a crítica do anime “Kakegurui” e indicamos “Erased” em um Garimpo Crunchyroll. Essas duas obras também receberam esse tratamento serial e são de cair o cu da bunda de tão ruins, então imagina meu desespero ao saber que Mob passaria pela mesma provação. Enquanto meus olhos sangravam, a impressão que tive era de estar assistindo a um tokusatsu (um Power Rangers japonês – aproveite e entenda mais na crítica desse filme) levado a sério, tornando a experiência sofrível a um nível que dificilmente consigo chegar ao fim da temporada.

É uma pena que seja assim. Mob Psycho 100 é um mangá magnífico com uma transposição para o anime perfeitamente acertada. Eu raramente leio mangás de obras com bons animes (o que eu já explorei na crítica de My Hero Academia), mas ao assistir ao anime (que eu cheguei por ser do mesmo criador de “One Punch-Man“) eu fui compelido a ir até o final de sua história. Caso você queira acompanhar também, a Panini está indo para o 4o volume da obra e, diferente do Japão, a qualidade da impressão dos mangás brasileiros é superior e, mesmo já finalizado na terra do sol nascente, a editora brasileira está mantendo um ritmo constante de publicação, não parecendo ser aquelas séries que ficam sem conclusão.

Saitama!

Nessa obra-prima acompanhamos Shigeo Kageyama, vulgo Mob, um adolescente sem sal e muito gentil com poderes psíquicos sem iguais. Ele trabalha e é aprendiz de um charlatão, o ilustre Arataka Reigen, aqueles típicos médiuns que vendem exorcismos e limpezas espirituais. Vemos seu desenvolvimento através de trabalhos realizados com seu mestre – que na verdade vive de explorar os poderes de Mob, mas ao mesmo tempo é um excelente ser humano – e antagonistas que acabam por se tornarem amigos, como o orgulhoso Teruki Hanazawa e o engraçadíssimo fantasma Dimple. A relação dele com o mundo dito normal, o que geralmente costuma ser um ponto baixo nesses animes, é MUITO bem construída. Todas as cenas que envolvem o clube de malhação com os alunos bombados e gente boa (o que é uma senhora quebra de expectativa) e o clube de telepatia com os maiores nerds da escola, que agora dividem a mesma sala de atividade extra, me faziam rir de chorar.

Claro que o grande destaque são as cenas de luta e exibição de poderes psíquicos, especialmente quando nosso protagonista chega a 100% de estresse e vira um Hulk psíquico. O mangá é ótimo nesse quesito, mas o anime é de subir o cu da bunda que caiu lá em cima. A direção de arte fez um trabalho sem igual na animação de Mob, trazendo cores, ângulos, efeitos e formas desproporcionais que criam uma identidade única ao anime. Caso você queira assisti-lo, está disponível em toda sua glória na sua 1a temporada no Crunchyroll, contudo, caso você não queira assistir 12 episódios, existe um OVA (também disponível no Crunchyroll) de 1h que faz um apanhado de tudo o que aconteceu de forma hilária. Esqueça o live-action e viva o esplendor que é Mob Psycho 100.

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