Há alguns anos eu fui apresentado à história francesa do L’Enfant Sauvage por causa da banda francesa Gojira, que dedicou um álbum inteiro a esta história absolutamente fantástica que também já foi adaptada ao cinema inúmeras vezes, inclusive pelo mestre Truffaut em seu “O Garoto Selvagem”, de 1970. Um menino de 12 anos, na França do final do século 18, apareceu depois de pelo menos 8 anos morando sozinho na floresta, tendo sido pesadamente estudado até a sua morte aos 40 anos.

Poucos anos antes de escrever “O Livro da Selva”, a Rudyard Kipling também viu sua Índia natal descobrir uma série de meninos selvagens aparecendo meio que do nada, todos com uma característica em comum: a adoção por lobos, o que talvez seja uma prova muito mais contundente a respeito da nobreza deste animal do que uma lição sobre a já combalida condição humana de quem abandonava crianças nas selvas ao primeiro sinal de algum problema com elas.

É óbvio, portanto, que a sensação de pertencimento – tão cara aos lobos de uma alcateia quanto aos humanos de nossa sociedade – tem aqui uma fonte riquíssima para metáforas e analogias poderosíssimas sobre o homem enquanto ser social e é justamente nisto que Andy Serkis concentra sua obra, valendo-se do bom, ainda que um tanto sem norte, roteiro de Callie Kloves.

O título em português diz tudo. Tomando emprestado o discurso de Kaa, a serpente mais velha que a própria selva interpretada por Cate Blanchett, Mogli realmente está entre dois mundos. Ele é homem e lobo ao mesmo tempo que não é nenhum dos dois. Ele pertence e não pertence a ambos os mundos na mesma medida e, desta forma, jamais será completamente aceito por nenhum dos dois. O que a obra de Serkis traz de diferente nesta versão da história de Mogli já tão adaptada ao Cinema é o apertado e longo abraço que ela dá na celebração das diferenças não enquanto algo que nos faz piores do que aqueles que, aos nossos olhos, são “normais”, mas que é aí que jaz a força que todos temos, seja como indivíduos, seja como sociedade.

Para quem não tá lembrado, Serkis é nada menos que o Gollum do “Senhor dos Anéis” e, mais recentemente, entregou vem entregando performances magistrais enquanto o macaco Caesar da série “Planeta dos Macacos“. Todo este expertise fez com que ele se tornasse a maior autoridade no mundo no que se refere à atuação para captura de movimentos, dominando como ninguém uma técnica que pega a cara da Cate Blanchett e joga numa serpente de modo a você enxergar perfeitamente a atriz numa cara de cobra. Mais do que fazer uma mera dublagem, a captura de movimentos hoje chegou a um nível de excelência técnica que é possível ver os olhos do Christian Bale na pantera Bagheera, por exemplo. A escalação de Serkis para dirigir este filme, quase que integralmente protagonizado por animais antropomorfizados interpretados por grandes estrelas, foi absolutamente perfeita.

Talvez seja até mesmo por isso que sejam os animais – com destaque para o já mencionado Bagheera de Christian Bale e para o vilão Sere Khan, o tigre de bengala vivido por Benedict Cumberbatch – que roubem a cena. Eles são melhores e mais críveis falando do que o próprio menino Rohan Chand como Mogli, que, apesar de estar muito bem caracterizado, carece da profundidade dramática que esta versão bem mais sombria e soturna exige dele.

E é justamente aqui que jaz o único grande problema da obra. Ela escolhe sempre trilhar um caminho mais maduro do que a de uma história para crianças como as outras adaptações costumavam ser, mas ela nunca vai totalmente para este lado, ficando em um meio termo que incomoda. Ainda que trate de temas pesados e violentos, a estética do longa parece acompanhar algo mais infantil e lúdico, tirando bastante do impacto que a verdadeira história de violência e sobrevivência de Mogli nesta versão parece tentar trazer. Esta aparente puxada no freio de mão prejudica a obra e seu ritmo, fazendo até mesmo com que sua duração de 1h44m pareça ainda mais longa.

No geral, contudo, Mogli – Entre Dois Mundos é um filme de orçamento claramente altíssimo, que poderia estar estreando nos cinemas do mundo todo com bilheterias enormes. Ainda que um pouco confuso em sua proposta, pelo menos sua mensagem principal sobre celebrar as diferenças ao invés de execrá-las é passada de forma muito clara e pertinente, valendo-se, ainda, da interpretação inspirada de grandes nomes do Cinema.

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