Este filme pode, num primeiro momento, soar muito familiar em todas as suas premissas: Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.) é um estudante negro de cinema de 17 anos que tem seu mundo de família de classe média em um subúrbio nova-iorquino desmoronado quando se vê acusado de homicídio. Ele tem um envolvimento um tanto superficial com aqueles personagens bem típicos de filmes americanos com temática racial: negros, jovens, amantes de rap e jogadores de basquete de rua. No entanto, o elemento interessante que esse filme traz é o uso de uma metalinguagem simples e muito bem desenvolvida, que estabelece uma peculiar perspectiva narrativa do personagem principal, sempre pairando a dúvida se o que ele diz realmente condiz com os fatos ou se é uma história fabricada a seu favor.

Numa narrativa não linear, acompanhamos aspectos comezinhos da vida do jovem Harmon, como sua relação com os pais, o aparecimento da paixão adolescente e a paixão pela fotografia. E logo de cara já percebemos que há uma diferença fundamental dele para os outros jovens que o cercam, e também para os personagens geralmente protagonistas nesse tipo de filme: ele se mostra culto e sensível às artes, parece não querer se meter em confusão, mesmo com ofertas de pequenos desvios sempre rondando, e tem um núcleo familiar cheio de amor e transbordando cultura, emanados principalmente de seu pai (Jeffrey Wright).

“Monstros não tremem à noite.”

No entanto, o filme inicia com ele encarcerado aguardando julgamento por homicídio, o que não casa com a narrativa. Então descobrimos que ele faz o curso de Cinema e aos poucos entendemos que o filme se passará todo como um monólogo, uma narrativa em primeira pessoa muito bem construída para que o protagonista te conte uma história, mais do que exatamente a “sua” história real. É um olhar do fazer cinema que se desenrola para o espectador e que usa elementos bastante caros à essa arte, como a dicotomia das cores frias do tribunal (metáfora à uma certa zona cinzenta vivida pelo personagem naquele momento) e o amarelado solar das ruas de Nova Iorque, bem como um cuidado com o arco (auto) narrativo do personagem. Sabemos que talvez devêssemos questionar sua confiabilidade como narrador, mas isso não é fácil considerando o personagem simpático que ele faz parecer. “Ele se parece com o seu filho”, ele mesmo nos assegura em certo momento. Neste sentido, quando vemos uma cena em que até mesmo seu pai amoroso parece incerto sobre a inocência de Steve (melhor cena do filme), isso nos choca.

Ao entrelaçar a vida antes da prisão de Steve com o desenrolar de seu caso no tribunal como um roteiro de cinema, Monstro propõe uma metanarrativa sobre verdade, perspectiva, relato e memória. Apesar de faltar elementos que nos ajudem a ter um envolvimento melhor com os personagens (creio, por exemplo, que a relação com o pai poderia ser melhor explorada), este filme traz uma linguagem que o coloca numa prateleira diferente das centenas de obras com temática parecida e parece refletir um momento de certo otimismo com a questão racial nos EUA, depois do pesadelo da Era Trump e a condenação do assassino de George Floyd naquele país, coisa que jamais ocorreu nos inúmeros casos similares anteriores.

O sol.

A questão que ele parece nos impor é muito bem resumida na fala final de seu protagonista: “O que você vê quando olha pra mim?”.

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