Inspirado pelo clássico de Franz Kafka, “A Metamorfose”, e pelo nome cheio de trocadilho do músico japonês que visitou recentemente o Brasil, Shota Nakama, Mushikago no Cagaster aporta em nossa plataforma de streaming em sua 1a temporada. Com uma premissa simples e notoriamente inspirada em vários clássicos oitentistas pela concepção visual, como o cronenberguiano “A Mosca“, estamos no século XXII quando uma doença começa a transformar humanos em insetos, conhecidos como cagasters. Nesse processo, 2/3 da população mundial morre, forçando os remanescentes a viver em cidades isoladas e com um forte controle militar das ruas com medo de novos surtos ou ataques de cagasters. Com uma licença especial para trabalhar caçando esses insetos, os exterminadores passam a compor um estrato da sociedade detestado, mas cujo serviço é apreciado. Quase como um Witcher, mas quem “toss a coin” é o Estado. No mais, tanto o exército quanto os exterminadores, durante os primeiros sintomas de manifestação da doença, têm uma janela de 20 segundos após o surgimento das asas – ponto no qual a pessoa perde seus direitos e deixa de ser humana segundo a lei – para cortar a cabeça do cagaster, uma vez que o pescoço é a única área sensível ainda nesse processo.

Eis que numa excursão fora da cidade para recolher espólios, o exterminador Kidow topa com uma garota, Ilie, e o pai dela fugindo de um ataque de cagaster e inicia-se uma relação que conduz lentamente a história até seu 6o episódio, quando as cortinas começam a ser levantadas e vemos de fato sobre o que a série veio falar. Nossa protagonista Ilie possui uma habilidade especial (e manjada) que a torna um alvo valioso para disputas entre cidades que envolvem segredos estatais um tanto perturbadores a la “Alien“. Desse ponto em diante, começa uma montanha-russa de de questões éticas e morais, além de muita rivalidade e jogo de poder entre as cidades que ainda resistem ao tempo.

Tirando a questão técnica da frente, com um 3D de fato bom, especialmente nas cenas de ação, mostrando uma evolução sensível na técnica que já aparecia em “Demon Slayer” (confira nosso Top 10 animes de 2019) e uma dublagem e localização bem decentes, Mushikago no Cagaster tenta puxar algumas discussões interessantes. Como, por exemplo, a rivalidade entre exterminadores e militares no que tange a definição sobre o que é ser humano. Quando de fato uma pessoa contaminada deixa de ter seus direitos? São os direitos que dão condição e status de ser humano para as pessoas ou é a definição biológica? Experiências genéticas com fetos para salvar a humanidade são éticas ou não? São algumas perguntas que a obra nos faz (e responde), mas que ficam ecoando um tanto na sua cabeça.

Contudo, Mushikago, ao tentar resvalar em críticas sociais, como as crianças abandonadas e as “favelas” nas cidade E-05 e a rivalidade com a cidade E-07, se perde um tanto e exibe uma barriguinha que comprometeu o terço final da obra, mesmo que muitos dos personagens sejam cativantes e apresentem bons conceitos, como a mulher trans dona de um albergue ou o grupo de meninos órfãos que vivem nas ruínas de uma parte da cidade. Ficamos aqui com um resultado que me deixou um sabor amargo no final, embora o início tenha sido interessante. Ao querer demais, Mushikago no Cagaster acabou por não acertar muito. Uma pena, mas só pelos conceitos e as cenas de ação vale a sua visita.

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