Stefano Cucchi, italiano, 31 anos, detido, em 2009, numa abordagem policial que encontrou 20g de maconha e 2 de cocaína com ele. Sete dias depois, sob custódia da polícia, com vários hematomas no corpo, duas vértebras da coluna fraturadas, Cucchi morre. Sua morte causou enorme polêmica na Itália e sua família busca por respostas até hoje.

Sua história ganha as telas, chancelada pela Netflix, em Na Própria Pele – O Caso Stefano Cucchi, dirigido por Alessio Cremonini e estrelado por Alessandro Borghi, em performance bastante convincente.

O longa, enquanto experiência fílmica, desperta dois olhares e dois julgamentos opostos, fazendo dele uma produção que não consegue escapar do lugar-comum da maior parte das produções sobre o tema, “baseado em fatos reais, com um pé no documentário e outro no cinema ficcional, sem dar conta de nenhum dos dois totalmente”.

Por um lado, o roteiro ganha força ao discutir um tema tão pesado na nossa sociedade, que é a questão da violência policial e da realidade prisional no mundo. As cenas nas quais o protagonista vaga de delegado em delegado, juiz em juiz, médico em médico e alega ter “caído da escada”, por medo de denunciar seus algozes, são de doer o estômago, culminando no diálogo mais forte do filme, no qual um policial pergunta ao preso até quando ele vai sustentar aquela versão absurda e recebe como resposta a frase: “Enquanto a escada insistir em me bater”. Soco.

Por outro lado, o texto não consegue dar conta da própria estrutura, oscilando entre diálogos totalmente desarticulados, artificiais no pior sentido do termo, e cenas de total silêncio ou de linguagem elíptica. Poderia soar estiloso, mas o resultado é tosco.

A fragilidade do roteiro fica mais exposta pelas sofríveis fotografia e direção de arte. Ambas optam por um visual espartano, de parcos recursos, que transformam o longa numa sucessão de luzes esverdeadas (lembra o banheiro no primeiro Jogos Mortais?) e ângulos estranhos em cenários que parecem vazios, não por mise-en-scène, mas por falta de grana mesmo.

No campo das atuações, o elenco não tem muito o que mostrar, já que as cenas foram montadas de uma maneira que impede o maior aprofundamento no que se passa com as personagens, o que é lamentável ao se pensar como a obra ganharia se a família do protagonista fosse mais explorada, por exemplo. Essa escolha por uma edição econômica consegue, no entanto, dar um fruto interessante quando o longa decide não mostrar ao espectador nenhuma das violências sofridas por Stefano. O choque de imaginar o que lhe aconteceu apenas através do aumento dos hematomas e demais sintomas físicos causa um interessante efeito fílmico.

No geral, Na Própria Pele – O Caso Stefano Cucchi se sustenta mais pela relevância de seu ethos do que pela sua forma enquanto obra de arte. Meritório pela discussão que levanta, frágil na apresentação, lembrando mais um episódio de qualquer programa do Discovery ID do que o excelente “Os Últimos Passos de um Homem”, de Tim Robbins.

O parágrafo acima deveria encerrar esta crítica, mas seu autor não teria paz se não falasse mais duas coisas: 1. Foi triste ver o filme e, como cidadão carioca, me indignar com o fato, mas não me surpreender com ele; 2. Dados oficiais mostram que, de 2014 a 2017, pelo menos 6368 pessoas morreram em penitenciárias brasileiras, em uma média de 4 pessoas por dia. Sob custódia do Estado.

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