Quem é você quando ninguém está olhando? O que passa na sua cabeça que você sabe que não pode verbalizar ou dar vazão? Essa terrível condição humana de ser escravo de seus desejos encontra nas normais sociais e, muitas vezes, legais uma verdadeira fábrica de versões de si mesmo. Existe a sua versão no trabalho, outra para a família, amigos, internet e tantas quantas forem necessárias para você conviver com as outras pessoas também em suas versões. Vivemos em um mundo de falsidade com relações artificiais, mantidas por mentiras e meias verdades.

Mas existe um aparelho que permite que você seja quem realmente você é: o celular. Agora conceba alguém explorando cada foto e conversa que você tem. Qual seria seu nível de ansiedade? Quais desculpas estariam passando pela sua cabeça para justificar aquela imagem ou mensagem que você sabe que se alguém encontrar vai passar a te olhar diferente? Essa é a verdadeira Caixa de Pandora do século XXI.

Agora imagine que você vai jantar com seus amigos e seus respectivos parceiros em um evento corriqueiro. Eis que no meio da social, alguém – geralmente aquela pessoa que é nova no grupo e quer se enturmar – acha que seria divertido fazer um jogo com os celulares. Colocá-los todos na mesa e sempre que chegar uma mensagem ler em voz alta e sempre que chegar uma ligação atender no viva-voz. Essa é a receita perfeita para acabar com amizades e relacionamentos. Pegando essa premissa, Nada a Esconder, longa francês distribuído pela NETFLIX, nos leva para uma noite reveladora e tragicômica.

O filme, apesar de ser tenso em suas melhores partes e ter alguns momentos engraçados, trabalha questões muito delicadas sobre como nos relacionamos com pessoas muito íntimas, que teoricamente são as que nos conhecem mais profundamente. Óbvio que quase tudo que sai desses celulares é de cunho sexual e, geralmente, não socialmente aceito. Isso cria diversas discussões com pontos de vista diversos, já que os personagens são de áreas do conhecimento distintas, de classes sociais diversas e representam gerações diferentes.

Apesar de ter um começo lento, seu desenvolvimento é agradável e seus personagens conduzem bem a história, aproveitando cada momento com diálogos mundanos típicos de encontros assim. Contudo, esse é um cenário que imagino que NINGUÉM aceitaria participar. E, caso você participe, assim que começasse a desmoronar pra um, todos sairiam. Se tem algo no longa que talvez não lhe pareça muito crível é a baixa quantidade de mensagens recebidas. Aqui no Brasil seria foto de mamadeira de piroca, áudio do gemidão e vídeo de putaria a cada 10 segundos. Mesmo que você não se reconheça em algum personagem – e, se reconhecer, faça de conta que não é contigo – você simpatizará com as opiniões dos temas discutidos, como monogamia, opção sexual e preconceito.

Mesmo a película trazendo uma questão mística que tira todo o peso das decisões ao longo do filme, essa produção francesa é uma ótima pedida para relaxar nesse feriado, caso você assista SOZINHO.

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