Um dos maiores medos que um adolescente enfrenta, em especial atualmente, é a aceitação. Poder se encaixar em um grupo pré-estabelecido e ser capaz de desfrutar dos modelos impostos por esta configuração frente aos demais no convívio social é um dos primários objetivos de todo garoto e garota. Sem perceber que é uma prisão a priori definitiva para seus anos iniciais, o indivíduo tende a se colocar mais e mais amarras para que possa respeitar o padrão demarcado por estes sectários. Aquele que, porém, de forma alguma está representado pelos elementos primordiais se torna, em conclusão, uma aberração, um excluído. Um pária.

Com esses dissabores vive Maria (em boa atuação de India Eisley), uma menina de aparência frágil, quase como uma boneca de porcelana rejeitada na prateleira de uma loja, sem apetite, sem relações e sem amor próprio. O único contato que tem no ambiente escolar é a colega Lily (Penelope Mitchell), muito mais por ser amiga de infância do que por ter qualquer apreço pelos atuais dilemas e conflitos da jovem companheira. Os pais de Maria surgem como símbolos de grilhões daqueles modelos: Dan (Jason Isaacs) e Amy (em bela performance de Mira Sorvino) são por demais ligados pela estética, a ponto de impor suas prioridades à filha indefesa. Para somar a este contexto de frustração, o sempre presente bully está lá, nos longos corredores gelados de uma instituição sem cor, a zombar da chorosa menina, locupletando-se da angústia dela.

Maria e Airem, expressões de uma só.

Mas a vida de Maria começa a mudar quando seu reflexo no espelho a confronta, colocando-a de frente para seus sentimentos, pensamentos e desejos. Airam (Maria espelhado) cobra de sua imagem real um posicionamento mais forte, de modo a seduzi-la a um novo mundo de atitudes, força e vontade de potência. Como se atraída por um diabo travestido de mágico, Maria cai na lábia de Airam e troca de lugar com ela, passando a ser o reflexo fragilizado de sua imagem fortalecida. A dicotomia interna de seus sentimentos agora toma forma enquanto Maria dá lugar ao seu oposto, colocado em liberdade. Airam é o que ela pretendia ser, mas nunca teve coragem. Seus medos, então aprisionados, são reféns de seu monstro interior libertado. Airam, travestida de Maria (tal qual o diabo e o mágico), vai enfrentar cada um dos pavores de outrora, tendo em seus desejos reprimidos o combustível necessário para a execução de específicas ações.

A ambientação da narrativa em meio a neve sempre rígida que cai nos cenários ressalta a frieza e a falta de cor imperativas da personagem. A fotografia, que enaltece esse aspecto, dialoga diretamente com o estado de espírito da protagonista. Tão gelado quanto a paisagem vai se tornando a alma de Maria e a garota sentimental vai se transformando em um bloco de pedra. A mudança entre reflexo e realidade denota o embate intrínseco à pessoa de Maria; suas vontades, seus desejos, sua vitalidade antes reprimidos sendo levados à superfície de seu ser, enquanto a troca de lados do espelho surge tão somente como uma alegoria para a luta interior presente há muito. Como um grito engasgado por anos, Maria invoca a si mesma fazendo aflorar de dentro de si o que sempre fora.

O olhar multifacetado de um.

As opções do diretor e roteirista Assaf Bernstein para contar esta história são harmônicas de modo a criar uma sinfonia gélida acerca da violação da pureza e da inocência, em muito deformadas durante a adolescência. Todo jovem está à beira do descontrole total, pois ainda não consegue ponderar seus sentimentos. O paraíso surge e se vai com a mesma rapidez em que chega o inferno pessoal. Enquanto isso, o indivíduo tenta se encontrar, perdido em meio a um turbilhão de emoções. Vazio o olhar; inerte a realização.

Não Olhe é um thriller de suspense psicológico com marcas de terror que mergulha fundo em um dos maiores medos do ser humano: a rejeição e a solidão; e a luta de um contra si mesmo, enquanto o caos pessoal insiste em despertar.

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