Ao lado de “Garota de Fora, série tailandesa também lançada essa semana pela Netflix, #NãoMeJulgue é inserida no catálogo carregando os mesmos elementos. Também ambientada em um universo colegial, adolescente e aparentemente compromissada em denunciar absurdos da bolha jovem pós-moderna, a produção conta a história de Lookkaew, uma estudante universitária que tem seu mundo despedaçado após ser estuprada e ter vídeos do crime vazados.

Ainda a história traga a perspectiva oriental, há a infeliz lembrança da existência de uma cultura machista a nível mundial, permissiva pra tal caso ser recorrente seja no Canadá ou na Tailândia, entre alunos de classe baixa ou alta. Não bastasse a violação em si já ser deveras chocante, adiciona-se um detalhe: o próprio namorado da menina, Aud, é quem a violou, tirando proveito da embriaguez pós-festa e ainda registrando em fotos o crime.

Nesse momento é onde o choque cultural é mais evidenciado: Lookkaew não denuncia o ocorrido, tampouco assume com todas as letras o que aconteceu. Muito pelo fato de se culpar por baixar a guarda, aliado à vergonha de agora não ter mais valor enquanto mulher, a garota passa pelo trauma sem contar a ninguém. Seu estuprador não parece ter consciência de que aquele sexo não foi consensual e age como se o motivo da briga dos dois fosse algo normal dentro de um relacionamento amoroso. A forma que o estupro é tratada é, de fato, bizarra.

O assunto todo abre espaço para uma discussão e desenrolar riquíssimos, é verdade. No entanto, não é isso que sucede. Envolto por um dramalhão inacreditável e irritante, que é impossível de ser naturalizado conforme o telespectador mergulha na série, #NãoMeJulgue surfa em uma onda asquerosa e sensacionalista. A partir de um assunto sério como esses entrega um núcleo adolescente cheio de intriguinhas, superficialidade e histórias mal contadas.

A expressão tiro pela culatra não poderia ser melhor usada como agora: uma série que parece propor a reflexão de como as mídias sociais têm potencial tóxico, sobre bullying pautado em moralismos antiquados e, em especial, sobre julgamento (dã, tá no título), acaba sendo apenas expositiva e perpetuando o ciclo que coloca a mulher como alvo de críticas e humilhação sempre que sua sexualidade é exposta. A fim de endossar esse argumento, cito a falha tentativa de inserir uma personagem na trama que procura empoderar Lookkaew; no entanto, tal menina é o oposto exagerado da virginal padrão. É pintada como prostituta (serviços de sexcam) e é notável como a narrativa conduz de maneira que ora fetichizao, ora abomina a garota. Exaustivo, viu.

No mais, de maneira completamente aleatória, mal construída e flutuante, ela traz a temática LGBT também (?) a partir de dois meninos que começam a ter um caso. A história paralela é bastante invisibilizada, sofrendo um efeito quase que “e agora uma palavrinha de nossos patrocinadores” enquanto a principal sai da tela. Não sei se o diretor só quis temperar com um pouquinho de temática LGBT por modismo ou se foi só incompetente mesmo e entregou esse trabalho porco – ou os dois. Tal fato é apenas mais um na pilha de razões para que a série não tenha dado certo e seja até mesmo dolorosa de ser assistida. Lastimável.

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