Foi em 2015 que a Netflix, ainda tentando se consolidar como uma produtora de conteúdo original e não somente uma passadora do que os outros produziam, lançou a nada menos que espetacular primeira temporada de “Narcos“. Contando com um Wagner Moura canastrão no tom certo no que é talvez o maior e mais bem sucedido equívoco de casting do audiovisual, José Padilha criava um fenômeno da cultura pop mundial, de certa forma parecido até mesmo com o que ele fizera com sua obra prima “Tropa de Elite”. Por ser um assunto caro e próximo a qualquer um que viva na América Latina ou cheire pó na gringa, tudo nos parece familiar e, desta forma, torna-se palpável, ainda que as histórias ali contadas sejam inacreditáveis mesmo sendo reais.

Depois de ordenhar a vaca colombiana por 3 temporadas – 2 focadas no cartel de Medellín do Pablo Escobar de Wagner Moura e uma no cartel de Cali – valendo-se de uma formuleta competente e viciante, para parafrasear outra obra de Padilha, agora o inimigo é outro. Saímos da selvageria e das cifras bilionárias colombianas para aprendermos sobre a história do tráfico de drogas no México, história esta que a série nos leva a crer (e eu tenho preguiça demais para pesquisar a fundo) que nada seria sem a figura de “El Padrino”, o homem hoje que puxa uma cadeia fortíssima chamado Miguel Angel Félix Gallardo, aqui interpretado com gosto por Diego Luna.

Preciso fazer um parêntese aqui para dizer que esta é a 1a temporada de uma nova série e não uma 4a temporada do Narcos da Colômbia, o que talvez queira dizer que a intenção da Netflix é fazer também no futuro alguma coisa sobre o célebre José Carlos dos Reis Encina, o nosso “Escadinha”. Cabe a você aí torcer para que isso aconteça ou não.

De todo modo, a tal formuleta da qual falei ali em cima volta bem forte aqui. Todo episódio é como um pequeno filme com começo, meio e fim, no qual um novo problema é apresentado, desenvolvido e tem seu desfecho, sendo todos usados como forma de desenvolver a narrativa principal. Em todos eles acompanhamos o núcleo narcotraficante criando do nada a organização que permitiria ao México, inicialmente, abastecer os EUA com toda a maconha que o povo de lá adorava fumar e, mais para frente, também se tornar o principal escoador da exportação colombiana de cocaína, bem como o núcleo da agência antidrogas americana, o DEA, aqui personificada pelo lendário Kiki Camarena (muito bem por Michael Peña), um dos agentes da DEA de maior renome internacional e cujo exemplo levou seu filho a se tornar um dos atuais Ministros da Suprema Corte Americana.

Na fórmula sempre temos uma batida ou alguma operação do DEA e, do lado dos traficantes, alguma nova ideia ou risco que eles têm de tomar de modo a expandir seus negócios. É formulaico, é idêntico a “Narcos“, mas, puta que o pariu, como funciona bem! Mesmo com um orçamento que parece ter sido bem menor desta vez, a produção é ainda um primor e a escalação dos atores não comete os mesmos equívocos malucos de “Narcos“, usando basicamente mexicanos de verdade ou americanos de ascendência mexicana, o que confere uma credibilidade maior ao realismo que a produção claramente tenta apresentar. Temos até mesmo vários easter eggs do pessoal da Colômbia, interpretados pelos mesmos atores de “Narcos” que, felizmente e ao contrário do que costuma ser, não são em nada gratuitos, ajudando a contar como se desenvolveu aquela indústria no México, até mesmo porque a relação entre os cartéis colombianos e mexicano é crucial para se entender a ascensão do hoje extinto cartel de Guadalajara.

Desta vez, contudo, os roteiristas não estavam tão inspirados para escrever os diálogos e situações que, embora envolvam uso pesado de drogas e violência extrema, às vezes parecem bobos e desnecessários. Ao mesmo tempo, mesmo que o casting de uma maneira geral tenha sido melhor, é impossível não sentir a falta de um personagem do tamanho do Pablo Escobar de Wagner Moura aqui, ausência essa que já fora sentida na 3a temporada de “Narcos“, o que não quer dizer, contudo, que os atores não estejam todos bem em seus papéis.

Apresentar mais do mesmo, via de regra, é ruim e algo que, enquanto expressão artística, faz com que a mensagem que se quer passar não seja ouvida. No caso deste Narcos: México, a coisa muda de figura. Apresentar mais do mesmo confere a série um nível de entretenimento comprovadamente alto e a mensagem sobre como a ganância humana é ilimitada é passada não por qualquer mérito artístico nesse sentido (e, vejam, méritos artísticos a série tem muitos), mas porque ela nada mais faz do que retratar a brutal verdade sobre a condição humana, sem floreios ou maniqueísmos.

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