Chegando como muitas outras séries costumam fazer em final de ano, a NETFLIX  liberou um especial de Natal de Neo Yokio. Antes de mais nada, confira a crítica da 1a temporada. Ela será importante para a discussão nessa curta análise e, caso você não a tenha assistido ainda, fique tranquilo. Não falarei nada aqui que estrague a sua experiência. 

O especial começa com Kaz Kaan (Jaden Smith) indo dormir às vésperas do feriado. Deprimido por estar entediado, ele pede para seu conselheiro robô, Charles (Jude Law), contar uma história sobre o significado do Natal e, antes que a gente perceba, já começamos a seguir na historinha o cotidiano de Herbert, funcionário de uma loja de vendas de artigos de luxo.

Nosso vendedor acaba incumbido por Kaz – que também está na história – de comprar um presente de amigo oculto para seu arqui-inimigo Arcângelo Corelli, que compõe o seleto grupo dos 10 solteiros mais cobiçados de Neo Yokio. Essa troca dos presentes caríssimos e exclusivos será transmitida ao vivo pela tv e é algo tão grandioso e tradicional quanto Roberto Carlos cantando em dezembro na Globo, que, aliás, esse ano será dia 21, não percam. A partir desse ponto somos guiados pelos caminhos sinuosos do poder corporativo e do status daqueles no topo da pirâmide social.

Neo Yokio: Natal Cor-de-Rosa mostra uma enorme evolução na proposta do anime. Enquanto a 1a temporada foge de uma conexão com o público, apresentando temas distantes, como a seleção do tipo de vinho, e a má condução de uma sátira, adentrando mais os meandros de ser rico do que uma crítica à riqueza acumulada, nesse especial temos o oposto.

Já na cena de abertura Kaz pede ao seu robô para contar uma história com o qual ele possa se identificar, levando para uma metalinguagem a apresentação de um personagem pobre, único em toda série, com o qual a maioria de nós consegue se ver. Caso, assim como eu, você consiga se imaginar comprando tênis de marcas genéricas na Leader mais do que comprando na Balenciaga, seja bem-vindo.

A própria postura de Hebert, de ser extremamente serviçal, agindo como inferior e tirando prazer dessas atitudes, exemplifica como o status conseguido com acumulação de capital é muito valorizado em nossa sociedade, mais do que nosso próprio caráter. Além de buscar essa identificação que ficou ausente na 1a temporada, há aqui uma sátira direta e que não poupa esforços para apontar os absurdos da noção da perda de valor do dinheiro. 

Até mesmo quando não há o contraste de classes sociais, Neo Yokio busca o confronto entre personagens ricos de personalidades diferentes em exemplos na forma de encarar o mundo. Enquanto os ricos de boa índole vivem num bolha, não tomando conhecimento das mazelas dos 99% da população, os de má são apresentados com total falta de empatia.

Além da construção social ser melhor construída, temos símbolos e práticas culturais estereotipadas engraçadíssimas sendo retratadas, como o Toblerone gigante no aeroporto – e, burguês que sou, sempre compro um voltando de viagem – e a tia francesa de Kaz, que como todo bom francês crítica o materialismo americano.

Em suma, esse especial de Neo Yokio é de fato literal. Visualmente ousou em alguns momentos, conversou com o telespectador e fez em 1h o que toda a 1a temporada não conseguiu: divertir.

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