Há uns 4 anos, quando meu sobrinho e então ursinho de pelúcia (título este que ele hoje, do alto de seus 6 anos de muita maturidade, rejeita) tinha 2 anos e pouquinho, eu comecei uma tradição que, espero, perdurará até a morte de levá-lo ao cinema. Com irmão e cunhada apreensivos achando que o tio barbudo, metaleiro e com cara de maluco perderia o sobrinho, eu e Henrique fomos assistir a “Operação Big Hero” e, para a surpresa de todos, não só eu não o perdi como eu e ele tivemos uma tarde extremamente divertida e memorável, a respeito da qual conversamos até hoje, principalmente porque eu comprei sorvete para ele e haviam me mandado não comprar.

Tendo esta memória afetiva indelével e que comigo ficará para todo o sempre (e também porque fui obrigado por ele a assistir a este filme mais umas 857 vezes), foi-me totalmente impossível não fazer a associação de “Big Hero” com Next Gen, o novo longa animado original Netflix. Além do estilo da animação ser parecido, temos aqui, como lá, uma protagonista que sofre pela partida de um ente querido e que encontra um robô sinistrão que se tornará seu melhor amigo e a única esperança de salvação para a humanidade. Esta impressão, para qualquer pessoa que tenha assistido ao filme de 2014, virá forte e será evidente, mas, felizmente, Next Gen consegue ir além dela, apresentando uma narrativa própria, ainda que a sensação de primo pobre da animação da Disney permaneça por toda a exibição.

Baseado vagamente numa espécie de tirinha online de muito sucesso na China chamada “7723” (que é o nome do Baymax da vez), Next Gen é passado num futuro aparentemente distante, quando a humanidade se vale de robôs para as tarefas diárias. O filme conta a história de Mai, uma das protagonistas mais execráveis e antipáticas de que tenho memória no terreno das animações. Ela sofre porque, anos antes, seu pai, por motivos ignorados por nós, a abandonou, deixando-a para ser criada pela mãe. De cara o longa já cria um clima mais pesado do que é a praxe neste tipo de animação, uma vez que temos aqui uma menina claramente depressiva e uma mãe que preenche o vazio deixado pelo marido com delírios de consumo dos mais novos gadgets tecnológicos, traçando-se aqui um paralelo muito pertinente e óbvio do que hoje acontece nas filas intermináveis de pessoas literalmente desocupadas que acampam à espera do lançamento do novo Iphone. E a coisa não para por aqui, uma vez que a mãe de Mai é fã incondicional de Justin Pin, uma espécie de Steve Jobs, com seu Steve Wozniak e tudo, idolatrado pelas massas ignaras que o agradecem e adoram porque ele as manipula para comprar um produto.

Eventualmente, as coisas acontecem e Mai acaba fazendo amizade com um robô-protótipo do Dr. Tanner Rice, o Wozniak de Pin, chamado 7723 (que é o nome do gibi original), um modelo poderosíssimo, mas ao mesmo tempo tão fofo e amigo quanto o Baymax.

A partir daqui, Mai, que tem uma ojeriza violenta a robôs por culpá-los pela falta de atenção de sua mãe, passa a usar o pobre do 7723 em massacres diários de outros robôs, descontando toda a sua raiva adolescente nos equipamentos de outras pessoas. E, pior, ela age de maneira tão escrota que não só condiciona sua amizade e amor ao robô à utilidade que ele tem para ela, como também o esculacha ao ver esta utilidade perdida quando 7723 sacrifica parte de si para não perder Mai.

Trata-se verdadeiramente da quintessência do adolescente insuportável que nos dá a todos aquela pontada de vergonha de já ter sido e é aqui que está o maior problema do longa. Sua protagonista, apesar de cumprir um arco de redenção bem padrão, não provoca a empatia do público. É somente por causa da fofura e verdadeira devoção de 7723 que o espectador passa a se importar com a trama principal e não só com os altos e cabeludíssimos papos que ele tem com o cachorro Momo.

Claro que o roteiro, também padrão até a medula, não ajuda muito, mas a construção do personagem de 7723 e os arcos de verdadeiro desespero emocional pelos quais passam Mai e sua mãe -em um sub-texto que fica bem na cara e é relevante diante da sociedade de consumo em que vivemos – conseguem algum sucesso onde a protagonista e suas ações execráveis falham.

O filme é muito ajudado, é claro, pela animação de primeiríssima qualidade dos diretores Joe Ksander e Kevin R. Adams, veteranos da indústria dos efeitos especiais e animação fazendo sua estreia como diretores de longas. Mesmo que seja um tanto derivativa, mais uma vez evocando com força o já mencionado “Operação Big Hero”, ela é feita com um esmero técnico que está no mesmo nível das grandes animações de gigantes da indústria como a Disney e a Pixar.

Há, ainda, uma tentativa de “adultizar” um pouco o filme. Temos palavrões (ainda que bipados), pessoas morrendo e um plano infalível do vilão do filme (que não revelarei quem é), cujo objetivo final é de uma violência inimaginável em um filme feito prioritariamente para o público infanto-juvenil. Funciona na maior parte do tempo, mas soa forçado em outros.

No geral, Next Gen é um longa animado de ação com um quê de Sci Fi acima da média e com nomes conhecidos do cinema americano (como John Krasinski, Jason Sudeikis e Michael Peña) na dublagem. Trata, ainda que superficialmente, de temas relevantes na sociedade de hoje e, de lambuja, entrega uma ação, embora clichezenta em alguns momentos, muito bem coordenada e engendrada, com destaque para a luta final entre dois robozões. Filme perfeito para eu ver agarrado com meu ursinho de pelúcia, nem que eu seja obrigado a suborná-lo com uma paçoquita para que ele me deixe chamá-lo assim hoje em dia.

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