Meus amigos mais próximos hão de se espantar ao lerem a afirmação que se segue: Sou um fã de George R. R. Martin. Tal espanto se deve ao fato de eu não suportar a série Game of Thrones. Calma, guardem suas pedras para mais tarde pois minha admiração ao escritor e o desagrado que a famosíssima série me causam têm lá suas razões. Eu ouvi falar em Martin pela primeira vez lá pelos anos 90, quando Wild Cards, série de livros editados e, em parte, escritos por Martin, fora lançada como um jogo de RPG. A história se passa em uma realidade alternativa onde um vírus alienígena causa mutações em seres humanos e estes adquirem poderes especiais, e os  super “heróis” são tão falhos quanto os humanos comuns. Era uma visão ácida e crítica da sociedade, típica do tempo em que fora escrita, uma história de super heróis “para adultos” (Esqueçam Marvel e DC, e adaptem essa série pros cinemas, por favor!). Quando o primeiro livro de GoT foi publicado em português uma amiga me recomendou: “É D&D pra adulto”. Logo em seguida anunciaram a série e eu, preguiçosamente, decidi vê-la antes de ler o livro. E isso foi um erro.

Angus Sampson, Maya Eshet, Eoin Macken, David Ajala, and Jodie Turner-Smith in Nightflyers (2018)

O time: ninguém seria aprovado em uma avaliação psicológica mais rigorosa.

Meu problema com a Westeros da TV não está na história escrita por Martin, mas sim na transposição de mídia. Martin cria personagens multidimensionais demais para se descrever com precisão na tela, e muitas vezes fiquei com a impressão de que aquele personagem tomou aquela atitude porque o escritor cismou que sim, e que ela é completamente incoerente com tudo o que foi construído até então. Num livro, o narrador tem como desenvolver tais reviravoltas. Em episódios de 1 hora, nem tanto. Em 1987, um conto de Martin com o nome de Nightflyers foi adaptado como um filme de baixo orçamento. O resultado é exatamente o que se pode esperar de um filme de Sci-fi de baixo orçamento de 1987: uma grande bosta.  Ao menos naquela época os trailers eram honestos. “Para onde eles estão rumando não é o mistério. O que os está levando lá, é”.

Eoin Macken in Nightflyers (2018)

O cientista dando o sangue pra completar sua pesquisa.

Este Nightflyers é a nova adaptação do conto, agora em uma enxuta e bem produzida série cuja primeira temporada tem 10 episódios de cerca de 45 minutos cada. Com uma direção de arte e efeitos especiais bastante mais coerentes e convincentes que a maioria dos filmes de nave espacial lançados nos últimos anos, e uma história também bastante mais criativa e bem contada, Nightflyers já, logo de cara, me agradou. A premissa (ou a maneira como eu a descreverei) parece discutível: um cientista desacreditado mas obstinado em fazer contato com alienígenas recruta um grupo de especialistas desequilibrados para embarcarem em uma nave mal-assombrada em uma viagem de um ano no espaço para interceptar uma possível nave extraterrestre que pode, quem sabe, ajudar a salvar nosso planeta infectado por uma epidemia. Balaio de gato? Você não viu nada!

Houston, we have a problem, mas tudo bem, vamos em frente assim mesmo.

A história tem todos os elementos da ficção científica dos anos 80: cruzadores espaciais lendários com capitães enigmáticos (alguém lembra do Capitão Harlock?), corredores escuros e bizarros, e tripulação ainda mais estranha (forte referência à Nostromo do primeiro Alien), psiônicos (gente com poderes mentais, sabe?), pessoas geneticamente modificadas, seres tecnorgânicos, netrunners (o típico hacker de literatura Cyberpunk, que entra mentalmente no computador, ao estilo Matrix), ET, doença devastadora e, claro, fim do mundo que só pode ser evitado por essa missão. Só faltou viagem no tempo e universo paralelo… mas será que não tem? E é essa multidão de informações e referências que fazem a história, criando um universo rico (apesar de às vezes mal explicado) que nos permite acreditar que aquilo tudo poderia ser possível.

Sam Strike in Nightflyers (2018)

Scanners, sua mente pode destruir.

Com uma cena de abertura instigante, uma narrativa envolvente e episódios divertidos e coerentes (com exceção do sexto que parece mais um filler), a série mantem a sensação de mistério e suspense ao longo de toda a temporada, com direito a uma season finale que é o que se espera, deixando espaço pra que a segunda temporada venha nos explicar menos coisas ainda, o que não é, necessariamente, algo ruim. Minha única crítica fica para certos furos, em especial nas ações e motivações dos personagens. Como em GoT, várias atitudes, por mais que justificadas na histórias, são incoerentes com a descrição dos personagens e me deixaram com aquele mesmo gosto de “o camarada só fez isso porque o escritor decidiu que sim e ponto”. Ainda assim é uma história interessante, com elementos “vintage” divertidos e uma excelente direção de arte. Vale não apenas para os fãs de sci-fi, mas praqueles que gostariam de vislumbrar um lado diferente do famosíssimo criador de Game of Thrones.

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