“O coração do mundo é onde a gente quer pisar, é onde vai o desejo da gente. É o próximo lugar”. A fala de Selma (Grace Passô, do excelente “Temporadaresenhado aqui) soa como um sininho de esperança no futuro. Dirigida a Marcos (Leo Pyrata), ela consegue também soar extremamente fora de lugar na crua e potente realidade focalizada em No Coração do Mundo, longa de estreia da dupla de diretores Gabriel e Maurílio Martins.

Na periferia de Contagem (MG), Marcos vive de bicos e alguns delitos. Ao seu redor, uma miríade de personagens que encarnam o cotidiano de milhões de brasileiros pobres e comuns: a mãe Dona Sônia (Rute Jeremias), que caminha quilômetros todos os dias arrastando um carrinho lotado de detergentes e amaciante de roupa para vender, a namorada Ana (Kelly Crifer), que sofre as agruras do trabalho como cobradora de ônibus, ao mesmo tempo em que tenta encontrar um futuro melhor estudando, a irmã adolescente envolvida com um traficante, as velhinhas evangélicas que, em oração, tentam suportar a realidade de violência que as circunda e às suas famílias, dentre tantas outras figuras. Até que um convite para entrar em uma ação criminosa lucrativa e arriscada pode mudar de vez a vida do rapaz.

O resultado na tela é um dos melhores filmes brasileiros do ano. Em um momento como agora, no qual o cinema nacional está sob ataque oficial, No Coração do Mundo é a prova de que a arte não pode e não deve se curvar aos equívocos e ideologias de poderes fora dela. E que o Cinema também é um dos mais potentes espaços de reflexão sobre os nossos tempos e nossas vidas.

A produção coleciona acertos, começando pelo excelente roteiro. O texto consegue abarcar os dois lados preciosos da boa escrita: conta uma história muito bem urdida e coloca uma poética própria em cada fala. Algumas frases, por exemplo, são tão bem lapidadas que dá vontade anotar durante a sessão. No entanto, elas estão longe do que poderia sugerir afetação ou artificialidade.

Edição e fotografia se complementam criando a impressão de engrenagem funcionando perfeitamente. O ritmo da história é ditado por uma montagem que parte de e influencia, ao mesmo tempo, as imagens que a tela mostra. Imagens que se potencializam com o auxílio da surpreendente direção de arte, umas das mais bem-feitas em produções nacionais. Os detalhes nos cenários são de emocionar. Destaca-se também a trilha sonora, irônica, refletida. O rap Texas, do MC Papo, que compara Minas Gerais ao “peculiar” estado norte-americano cria uma das melhores aberturas de um filme.

A direção dos Martins é mais que inspirada, é completamente pensada e orgânica para a história que está sendo contada. Longe de fazer um cinema preguiçoso, os diretores abrem espaço para que o elenco forneça atuações sensíveis e fortes. Os planos escolhidos por eles constroem sequências memoráveis, incluindo a última parte do longa, que ganha ares de thriller bem construído. É cinema bom, de assinatura.

No Coração do Mundo, ao mostrar Minas Gerais e, por extensão, um Brasil fora do eixo edulcorado de certos discursos, é uma realização de impacto e necessidade para a nossa cinematografia. Vida longa ao Cinema que incomoda!

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