Invasão alienígena provocando uma guerra entre humanos e extra-terrestres é uma tema comum para blockbusters. O estúdio aposta em efeitos especiais impressionantes e em um elenco com, pelo menos, um grande nome de Hollywood para chamar a atenção do público. Esses dois fatores já seriam o suficiente para garantir o ingresso ao cinema para algumas pessoas, no entanto, no novo filme de Doug Liman (Sr. e Sra. Smith, Jumper e Identidade Bourne) baseado no mangá All you need is Kill do japonês Hiroshi Sakurazaka, o que interessa foge do comum e torna-se um filme interessante por possuir a temática de viagem no tempo (que quando bem trabalhada é sempre legal), pela qualidade do roteiro, a atuação dos personagens principais e a forma como a estória vai se desenvolvendo, colocando o espectador em relação direta com os fatos projetado.

No início do filme somos apresentados aos acontecimentos que precedem a cronologia do filme. Em um panorama de apresentação de programas jornalísticos da televisão começamos a compreender o que se passa no universo retratado e conhecemos, pela primeira vez, o Major Bill Cage (Tom Cruise), o garoto-propaganda do exército americano na guerra, sendo ele o protagonista do longo e aquele que influenciará toda história. Mas isso não precisa ver o filme para saber. Quando vemos Tom Cruise em cartaz, já esperamos que ele seja um cara safo e cheio de habilidades, corajoso e com personalidade heroica pronta para salvar o mundo. Certo? Nesse filme, errado. Cage é um soldado medíocre, tem medo de batalha e apenas se importa com sua imagem. Em um diálogo com o General Brigham (o ótimo Brendan Gleason), ele tenta chantagear seu superior, negando a possibilidade de ir para o fronte de batalha, pois aquele não é o lugar dele.

Essa desconstrução categórica é fomentada nas ações a seguir, em que o major é preso e acorda às vesperas da batalha em uma base militar. Querendo ou não ele terá que passar por isso. E isso será feito dezenas de vezes. Em uma sequência que remete claramente ao filme O Resgate do Soldado Ryan, a batalha futurista de invasão da Normândia entre homens e alienígenas é algo de se maravilhar. Bem construída, nunca confundindo o senso de localização do espectador, a batalha é retratada de grande forma e te deixa mais ciente sobre a total falta de habilidade para a batalha que a personagem de Cruise possui. Até o momento de sua morte, em que ele explode um alienígena diferenciado, o fazendo acordar novamente no momento que chega na base militar antes da batalha. Dessa forma, inicia-se o eterno retorno Nietszchiano para cada vez que ele morrer, ele sempre voltará àquele ponto. Recordar de alguma forma Feitiço do Tempo com Bill Murray não é nenhum pecado.
Méritos do diretor de fotografia Dion Beebe pela capacidade de emular o desconhecido com a transição de contraste de luz de quando Cage vive algo pela primeira vez, com o cenário mais escuro, e quando ele já possui mais conhecimento da situação, tornando toda cena mais clara. A poesia cinematográfica é visível e de muita qualidade. Conseguimos compreender que após repetidas tentativas, Cage tem mais discernimento de seus atos, evolui como soldado e estrategista. Seu futuro, antes nebuloso, se torna mais evidente. Inclusive, quando Bill Cage perde seu “poder” de voltar ao passado, a sequência final é totalmente obscura. Nada ali fora visto antes, nem ele nem nós tínhamos o vislumbre do que poderia estar por vir. E diferente de todos os outros momentos, sabemos que se algo der errado, tudo acaba.
Necessário elogiar a bela parceira entre Cruise-Blunt. Enquanto o primeiro desenvolve-se através dos loopings temporais e com qualidade demonstra essa evolução na tela, por vezes mostrando inexperiência quando está sendo colocado em uma situação pela primeira vez e em outras demonstrando segurança quando já fez aquilo diversas vezes antes (o direção e a montagem são impecáveis no ponto em que não precisam explicar quando é a primeira vez ou não que uma coisa está acontecendo, pela atuação e fotografia já podemos ter essa noção), a segunda é sempre segura, forte e consciente de suas limitações. A personagem de Emily Blunt é poderosa e reverte em cena concepções de nossa sociedade machista, por muitas vezes, sendo ela a dar o primeiro passo e promover atos de bravura típico dos heróis masculinos dos filmes.
Por fim, o filme nos faz refletir sobre a efemeridade e o valor da vida. Viver, morrer e repetir torna seus atos cada vez mais frugais. Fazendo uma analogia aos games, cada “Continue” apertado pelo personagem de Cruise, mostra como uma ação diferente em algum momento pode mudar completamente o rumo de sua história, porém também desvaloriza a vida. A morte não tem seu valor devido. Porém, é a morte o norteador de ações cruciais: Salvar a sua vida, salvar a vida de alguém, deixar alguém morrer… claro que em nosso dia-dia os fatos não são tão mortais assim, mas é inevitável não pensarmos ao fim do dia após assistir uma obra como essa como teria sido se nós tivéssemos feito algo diferente, dormido um pouco mais, não te esbarrado naquela pessoa na rua ou ter dado o telefone para uma pessoa que por ventura você achou bonita. Isso nos faz colocar na balança o valor de nossos atos cotidianos, que no fundo, nunca poderão ser avaliados por ninguém além de nós, e pior, não poderemos ser resetados para depois voltar a fazer tudo se lembrando do que acontecera antes. É agora. Sem limite para o amanhã.

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