Eu sempre falo aqui para meu amigo-irmão e sócio no MetaFictions, Ryan Fields, que a expectativa é a mãe de todas as decepções. Ele, reconhecendo-me como um verdadeiro doutrinador da condição humana e aforista nato que sou, repetiu estas palavras em sua excelente crítica da série original Netflix “Maniac“. Para o Ryan, assim como para muitos de nós, as frustrações e decepções recentes com os filmes e séries que vêm sendo lançados são praticamente inevitáveis, uma vez que é praticamente impossível manter-se ignorante quanto a torrente incessante de informações, trailers e teasers que saem a todo momento e que nos prometem obras-primas que quase nunca se confirmam. Em especial quando se é um nerd clássico como todos nós e, portanto, ávido por informações a respeito da arte que nos encanta.

E eu digo isso porque este excelente, ainda que irregular, Noite de Lobos certamente sofrerá disso. Apesar de eu ter assistido ao trailer, eu simplesmente não lembrava absolutamente porra nenhuma dele. Sabia só que se tratava de alguma coisa com lobos, no Alasca e imaginava que teria uma pegada meio thriller ou algo assim. E tem, mas não tem ao mesmo tempo. É um filme confuso, que, ao decidir não se enquadrar em gênero nenhum, embaralha um pouco a mente do espectador que esperava receber aqui um filme de gênero clássico, o que DEFINITIVAMENTE, não é o caso.

A começar pelo fato de que simplesmente não há um protagonista definido, tendo a obra escolhido, de maneira nada ortodoxa, dedicar protagonismo a 3 personagens em momentos distintos, ainda que concomitantes do longa. Inicialmente, o roteiro nos apresenta algo bem simples até. Russel Core (Jeffrey Wright, um sujeito incapaz de uma atuação que não ao menos excelente) é um especialista em lobos que é contatado por Medora Slone (Riley Keough, um dos pontos fracos do filme), uma mãe em algum lugar no cu do Alasca que alega que seu filho foi levado e comido por lobos. Ela, então, pede a ajuda de Russel para localizar restos de seu filho e matar o lobo como vingança. Core, motivado pela sua natureza curiosa quanto aos hábitos dos lobos e também por um subplot que fica meio solto sobre sua relação distante com a filha, aceita o convite.

Paralelamente a isso, temos o marido de Medora, Vernon (Alexander Skarsgård), um sujeito que está lutando alguma guerra em algum lugar cheio de gente marrom que americano tanto gosta de matar. E Vernon é particularmente bom nisso.

Coisas acontecem que não vou revelar aqui para não dar spoiler, Vernon volta da guerra e aí o detetive Maurin (James Badge Dale em mais uma boa performance) também entra na jogada, dividindo o protagonismo com os outros dois homens por uma parte considerável do filme e na cena que certamente é a mais memorável e brutal de todas.

E a partir daqui temos um filme sobre a condição humana, entremeada com momentos de ação violentíssima, thriller sobrenatural, terror slasher e um de mistério que, para quem está prestando atenção, fará todo um nauseante sentido ao final, ainda que, para quem não pescar as pistas ao longo de toda exibição, a coisa toda possa vir a parecer realmente uma maluquice do caralho sem pé nem cabeça.

Não é, contudo, o caso. Não há aqui uma estrutura que comporte um verdadeiro suspense que nos leve a ficar especulando sobre quem fez, como fez ou qualquer coisa assim. O mistério, que é realmente de difícil compreensão, jaz nas motivações dos personagens cujas ações desenvolvem a história, em especial tudo aquilo que cerca a origem e hereditariedade da família Slone que, por incrível que pareça (e é realmente incrível) é uma grande vítima das bizarras circunstâncias em que se originaram. Este é um filme, portanto, que demanda a sua atenção exclusiva, não cabendo aqui aquela olhadinha marota no Whatsapp.

O problema, contudo, é que ao mesmo tempo que ele exige sua atenção irrestrita, o ritmo da obra também parece ordenar que você dê a tal olhadinha marota no Whatsapp. Seus longuíssimos 125 minutos parecem ser feitos ainda maiores em cenas que se alongam em demasia, não sendo exagero dizer que a obra poderia ter tido facilmente menos 20 minutos de duração, mesmo que, para tanto, cortasse alguma parte da deslumbrante violência que é jorrada na tela de tempo em tempo. Há uma quebra de ritmo muito doida e nada convencional ainda no primeiro terço da obra, quando saímos do gélido Alasca diretamente a algum lugar no Oriente Médio somente para que aprendamos o quão sinistrão Vernon realmente é.

Outro grande problema do roteiro, que em sua maior parte é de uma qualidade ímpar, é ser vago demais quanto às motivações e ao deslocamento dos personagens, que, em determinado momento, parecem dar uma volta por todo o Alasca somente para que voltem ao lugar de origem, sem que isso faça muito sentido dentro do contexto do que estava acontecendo.

Para além disso, o filme é também um primor técnico, com uma direção mais do que segura a cargo de Jeremy Saulnier (dos muito bons “Ruína Azul”e “Sala Verde”) e uma fotografia que competentemente se vale da aridez branca e dos grandes espaços abertos do Alasca como até mesmo um 4o protagonista, conseguindo, de forma muito singular, usar estas tomadas como forma de oprimir ainda mais seus personagens.

No geral, Noite de Lobos é um filme difícil, que exige do espectados mais do que é realmente razoável, mas que, se esta exigência for atendida, entrega uma experiência diferente do que se percebe por aí usualmente.

Despeço-me deixando-vos com a belíssima Summoning the Splendour Once Fallen, da banda polonesa de Black Metal Evilfeast e que ilustra bem o quão heterodoxo é este filme, além de fazer parte de sua trilha sonora.

Sugestões para você: