Tipicamente eu faria aqui uma ressalva logo no começo dizendo que, por se tratar de uma crítica motivada pelo lançamento da 2a temporada de Norsemen, este artigo estaria lotado de spoilers da 1a. Contudo, depois de ter visto todos os 6 episódios de meia hora desta 2a temporada, eu cheguei a conclusão de que seria de uma utilidade muito maior apresentar fazer uma análise da série inteira, até mesmo porque a 2a temporada é idêntica à primeira no que se refere à qualidade e estrutura narrativa.

Norsemen é uma série produzida pela TV norueguesa NRK e distribuída internacionalmente pela Netflix (que continua com a mania de dizer que é uma série original dela). A curiosidade maior é de que se trata de um produto filmado duas vezes, com os mesmos atores, em norueguês para o mercado interno e em inglês para o internacional. Os criadores juram de pés juntos que são rigorosamente as mesmas cenas e diálogos, e, considerando que eu tenho preguiça demais para sair procurando a versão em norueguês para confirmar isso, vou acreditar neles.

A obra conta a história da aldeia viking de Norheim, mas poderia ser muito bem do bairro de Madureira, tamanha é a relevância de basicamente tudo o quanto é discutido aqui se comparado aos dias atuais. Nesta 2a temporada, por exemplo, há o seguinte diálogo sobre tatuagem entre um viking tatuado e outro não: “Mostre-me um homem com uma tatuagem e eu te mostrarei um homem com uma história interessante”, diz o tatuado. “Parece que todo mundo tem tatuagem hoje em dia. Isso quer dizer que todos têm uma história interessante?”, responde o não-tatuado. Então o tatuado começa a repetir exatamente as mesmas besteiras sobre os significados das tatuagens que as pessoas ouviram no Miami Ink e que enchem a boca para repetir, todas com vergonha de admitir que fizeram a tatuagem porque era bonitinha e/ou fodona.

É este, portanto, o nível de relevância da obra enquanto um retrato da sociedade atual. Há até mesmo um jarl tirano repetindo bordões de Donald Trump, além de Kark (Øystein Martinsen), o escravo que é tratado brutalmente o tempo todo e fica feliz por isso, algo como o fenômeno do pobre de direita tão difundido por todo o globo hoje em dia.

Se na 1a temporada temos uma história sobre a ida ao oeste e um conflito fraterno entre o chefe Olav (Henrik Mestad) e seu detestável irmão Orm (Kåre Conradi), culminando em uma espécie de golpe de estado no lugar, na 2a o foco se volta para as relações entre Arvid (Nils Jørgen Kaalstad) e a guerreira Frøya (Silje Torp) enquanto continuam metidos numa confusão por causa do mapa que permite a navegação às novas e mais bem estupráveis terras do que é hoje a Inglaterra, tudo enquanto são ameaçados pelo bizarro Jarl Varg (Jon Øigarden). É importante um parêntese aqui sobre Frøya, pois ela me causa (e imagino que causará a você também) sentimentos muito conflitantes, o que fica óbvio logo na 1a imagem da segunda temporada quando ela está coberta de sangue, segurando uma rola decepada e discorrendo sobre o quanto é uma merda estuprar de barriga cheia.

Em ambas as temporadas, contudo, temos o mesmo tipo de comédia, que é conduzida com um humor de personagens que nos mantém um sorrisinho no canto da boca o tempo todo, sem jamais, contudo, apresentar aquele momento em que há a possibilidade real da pessoa se mijar de rir. São piadinhas situacionais, em geral fazendo um contraponto leve e galhofado entre a nossa época e a violência inerente a se viver como um viking no século 10.

Mesmo que este humor galhofado e sem lá muitas papas na língua funcione na maior parte do tempo, ele é prejudicado por uma falta de timing cômico de boa parte do elenco. Silje Torp, apesar de cumprir seu papel de mulher ameaçadora como Frøya, demonstra uma falta de tino cômico evidente, no que é seguida por muitos dos outros membros do elenco, o que talvez seja porque estão tentando fazer comédia em uma língua que não a própria. Além disso, as piadas e seu estilo se tornam repetitivos em alguns momentos, o que também incomoda um pouco.

De todo modo, Norsemen reedita em sua 2a temporada o mesmo que havia conseguido em sua 1a: uma comédia competente, que zomba de tudo e todos sem piedade e ainda, de lambuja, nos apresenta uma visão da era viking por um prisma que nunca havia sido explorado antes, o de Madureira.

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