Crítica: O Aviso (El Aviso) - Metafictions

Não sei se é por filtro auto-imposto pela Netflix, devido às minhas buscas, mas me parece que os títulos em espanhol são bem comuns no acervo do streaming. Nunca parei, no entanto, para ver se, entre todos os países (excetuando-se os EUA, obviamente), a Espanha é aquele mais contemplado pelas obras componentes desse catálogo. De todo modo, é definitivamente muito comum. Agora, mais uma vez, um novo filme original Netflix saído desse canto da Europa. Dirigido por Daniel Calparsoro, O Aviso é um thriller de suspense e mistério, que une dois momentos distintos no tempo a partir de uma mesma trama.

Acompanhamos Jon (Raúl Arévalo), uma pessoa metódica e regrada, que espera seu amigo para que passem em uma loja de conveniência de posto de gasolina. Uma vez lá, o amigo fica no meio de um tiroteio, em uma tentativa de assalto ou execução. Baleado, sua vida fica por um fio. Jon, com certo sentimento de culpa, já que deveria ser ele no lugar do colega, começa a buscar o agente por trás do crime, quando descobre que aquele lugar, a própria loja de conveniência, guarda um histórico de crimes e vítimas concretizados bem ali. Em sua busca, Jon entende um padrão matemático para o acontecimento das tragédias. Seu foco agora é impedir que, no futuro, esse ciclo continue a se concluir.

Jon cada vez mais submerso nas suas idéias.

Em paralelo, dez anos depois, seguimos o menino Nico (Hugo Arbues), de nove anos de idade, que sofre bullying dos colegas de escola, enquanto sua mãe solteira, Lucia (pela deslumbrante Aura Garrido), tenta protegê-lo das investidas dos covardes jovens. No entanto, as ações cada vez mais incisivas dos idiotas vão fragilizando o emocional de Nico, quando, no auge desse turbilhão, ele recebe uma carta anônima avisando para que não vá a loja de conveniência (aquela mesmo) de costume no dia de seu aniversário, caso contrário não sobreviverá. Seu aniversário marca a data em que todas as tragédias ocorreram: 12 de abril.

Jon, em sua ação incansável e determinada por entender o padrão matemático dos incidentes, vai entrando cada vez mais em uma espécie de loucura perpetrada por si próprio. É verdade que parece haver alguma ligação entre os números e os acontecimentos, mas isso pode sugerir algo forçado por parte do personagem (como outros amigos avisam a ele próprio), mas Jon tem uma mente fértil e pouco liga para as problematizações de seus companheiros. Enquanto isso, dez anos pra frente, Nico vê sua mãe querendo confrontar o aviso anônimo ao cobrar do garoto que (pasmem!) vá, sim, ao local no dia de seu aniversário. Será que as ideias de Jon são, de fato, confiáveis? Ou vemos nele tão somente um homem doido, querendo exorcizar sua culpa?

Sem palavras para descrever essa pessoa.

Calparsoro dirige o filme com segurança, contando com boas atuações e uma narrativa que envolve em certos momentos. Apesar disso, a premissa meio absurda – mas que parece fazer certo sentido depois de um tempo, mesmo para alguém são – sugere algumas falhas ou lacunas, que não resultam na compra da idéia pelo espectador. Por vezes, senti-me à parte do que ocorria na história, mas não por falta de entendimento (aqui, é tudo muito bem explicado); simplesmente porque toda a trama parecia ter sido construída de maneira um tanto artificial. A consequência é um menor envolvimento e participação do espectador para com a obra, que, não obstante, tem seus bons momentos.

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