Era ainda o século XIX quando a Bélgica se lançava ao Congo, em uma ação imperialista que seria comum a todo o continente africano naquele mesmo período, para enriquecer às custas da submissão do povo local aos desejos europeus de potência. O modelo belga fora um dos mais cruéis e o extermínio dos habitantes, bem como a pilhagem daquelas terras, gerariam consequências problemáticas que podem ser sentidas até o presente momento. E é neste presente momento que a Netflix aterriza, nas mesmas terras congolesas, para contar a história de uma espanhola em busca de sua irmã.

Laura (pela loira e enérgica Belén Rueda) sai da Espanha em busca da, até ser flagrada por cinegrafistas europeus no Congo, desaparecida irmã, que faz parte de uma milícia local responsável por administrar o coltan (um mineral de alto valor no mercado internacional). Esperançosa pela volta de parte de sua família para casa, Laura decide se meter em uma bizarra zona de conflitos para tentar resgatar Sara (Marian Álvarez). Uma vez lá dentro, contará com a ajuda de outros europeus e, principalmente, do local Jamir (vigorosamente por Iván Mendes) para adentrar a extensa mata onde os senhores da guerra se instalam.

Longe de casa.

O filme é uma jornada que nos coloca um pouco à par dos acontecimentos do Congo, que, na visão do europeu, é uma mini-África, visto que, por duas vezes, seus personagens falam “bem-vinda à África” ou “isso é a África”, reduzindo um vasto continente a um território central que carece de estrutura e vive acontecimentos de extrema violência e pobreza (não muito distantes, porém, do que podemos ver no Brasil – por vezes, inclusive, as semelhanças a um arrastão na Linha Vermelha ou a um “golpe de Estado” na favela são demasiadas; o que modifica é um cenário ainda mais pobre, tão somente). Dessa forma, Laura se limita a seguir em frente, enquanto foge de constantes investidas dos grupos paramilitares que tomam conta da região (tal qual as três principais facções presentes no Rio de Janeiro).

A história que começara morna e com o supracitado discurso um tanto quanto inconveniente resolve tomar partido e ser mais direta, ao apresentar algumas sequências bastante fortes, de modo que possamos provar de uma barbárie quase medieval, muito embora seja por demais atual. Estupros, metralhadoras, fuzilamentos, facões que esquartejam e um Congo do século XXI à imagem e semelhança daquele do século XIX. Negros submetidos por brancos; negros submetidos por outros negros. A natureza humana está acima de qualquer raça. O desejo pela destruição é comum a todos. O demasiado humano é desnecessariamente demasiado bestial.

A insustentável presença do passado.

Apesar dos esforços de Norberto López Amado para denunciar a miséria congolesa, seu discurso europeu não se esconde na história de Laura, mas fica latente em seu olhar espanhol, de cabelos reluzentes como o Sol. Mesmo, ainda que en passant, desnude a farsa de seus vizinhos que vão para lá, seja como repórteres, seja como voluntários das Nações Unidas, vendo naquele cenário deprimente uma outra fonte de riqueza (para além do mineral, as imagens gravadas que fazem sofrer nos noticiários de seus países, ou o auxílio da ONU voltado apenas para os conterrâneos do velho continente), ele reproduz esse olhar. Quase como uma salvadora, ou uma centelha de esperança (tal qual a caixa de Pandora, que a guardara após tudo de ruim sair dali), a médica Sara se vê nesta posição “Laura, eles me escutam; aqui eu posso fazer alguma diferença”.

O abismo entre eles.

Ainda que não seja como o velho Tintin que, em seus enfadonhos gibis, era referência de civilidade para os “negrinhos tribais perdidos no tempo”, Sara parece revisitar aquele olhar de um século e meio atrás, fazendo-nos ter um certo distanciamento em relação a forma pela qual El cuaderno de Sara nos conta essa história européia em terras africanas.

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