Sinta-se convidado a adentrar numa história culturalmente riquíssima e amorosamente palatável. O Casamento de Ali é de cair o queixo no que tange retratar com sofisticação um olhar sobre a cultura árabe, brincando com estereótipos patéticos e também, em momentos mais sérios, passando muito longe deles. Quero dizer que o filme bebe de um anticolonialismo admirável da parte do roteirista e ator principal, Osamah Sami (na pele dele mesmo, chamado de Ali), que claramente passou muito mais do que sua real história de amor. O recado dado foi fantástico e direto: “nossa cultura tem muito mais complexidade e esferas do que vocês, ocidentais, pensam.” Obrigada por essa porrada!

E eu juro que, de maneira geral, o filme não se propõe – MESMO – a trazer reflexão política ou social das braba. É uma comédia-romântica de um amor a la Romeu e Julieta, substituindo as famílias rivais Capuleto e Montéquio pelas iraquiana e libanesa. Dentro desse impedimento, a narrativa tempera através de detalhes que orbitam ao redor dos pombinhos questões que envolvem a mulher muçulmana e, é claro, a inerente influência religiosa no viver da comunidade árabe. Tendo como ponto de partida uma mentirinha mal pensada de Ali, na qual ele diz ter passado pra faculdade de medicina, esses relevantes pontos são tocados e provocados cá e lá.

Ao fundo, sua irmã, mãe, baba e irmão ocidentalizado. Ali rumo à maior mentira de sua vida: aulas de medicina!

Quero falar um pouco da personagem de Dianna (Helana Sawires), que pelo nome sabemos que tem maior proximidade ocidental, segundo a visão tradicional da comunidade, do que os demais. A menina, apesar de morar com o pai que é praticante da doutrina Islã ortodoxa, adota posicionamentos libertários dentro do permitido considerando o relativismo cultural acoplado. A grosso modo, poderíamos classificá-la como uma feminista islâmica, categoria que é uma das vertentes do movimento dentro da cultura muçulmana que adere ao Alcorão.

De início pode soar contraditório, pois temos essa ideia de que em sua origem o Alcorão é, inexoravelmente, misógino. No entanto, há mulheres que se apoiam em releituras e, na sua prática diária, ousam defender a ideia que não são subcategorias humanas e são dignas, sim, de liberdade. Afinal, equidade e justiça são pilares presentes nos escritos religiosos. Inclusive, a título de curiosidade, uma das mais famosas feministas islâmicas é precisamente uma libanesa, chamada Azizah al-Hibri – evidentemente precisei de ajuda do Google para escrever seu nome!

Dianne busca seu lugar enquanto mulher e religiosa, balanceando tradições orientais com ocidentais sem rivalizações.

Ali também se mostra um cara mais consciente do que o esperado através de seus gestos com as mulheres ao seu redor e, mesmo que dificultosamente, negando supostas obrigações religiosas que não lhes contemplassem. É até um pouco espantoso, e eu sei que soarei ignorante, que um homem inserido em um condicionamento com edificações sexistas, mostre-se sensível, amável e trate mulheres na mesma igualdade que os camarada tudo. Notavelmente, a influência de seu pai (Don Hany) como sombra se fez presente. O homem, que se mudou com a família em função da guerra entre o Irã e o Iraque para a Austrália, é líder da ummah local – uma comunidade destinada à manutenção da tradição do Islã. E a serenidade e razoabilidade característica do líder é refletida tanto em seus discursos quanto na criação do filho.

O Casamento de Ali é um retrato de história de amor que mistura aspectos de conto de fada do tipo “amor impossível” – o que sozinho é raso – com outros pontos peculiares e interessantes do oriente. O paradoxo da “ocidentalização” vs. “nacionalismo” motoriza a narrativa, fundida com o adorável sentimento dos dois, que prova que é possível um amor saudável dentro do islamismo. Toques de mão, beijos a seu tempo e um respeito genuíno e recíproco que mostra ser apenas um reflexo da validade de um relacionamento balanceado – seja ele religioso ou não.

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