Entre meus 10 e 14 anos, toda semana eu pegava um ônibus da minha casa até uma biblioteca no bairro do Cocotá, na Ilha do Governador. Futucava o que havia por lá, majoritariamente livros doados, e escolhia alguma coisa com base na capa, no nome ou numa eventualíssima sinopse que houvesse na contracapa. Isso no começo da década de 90, crianças, não podia buscar uma resenha online e descobrir o que poderia prestar ou não. Por causa disso, com 11 anos eu li “O Príncipe” de Maquiavel. Afinal, na minha cabeça aquilo era uma história sobre um príncipe, logo deveria haver lutas de espadas e afins e não um tratado político que plantou a sementinha que me tornaria o ser cínico, debochado e desesperançado que sou hoje.

Além de ter destruído parte da minha infância por causa do que narrei acima, essas minhas idas à biblioteca, ironicamente, também construíram uma adolescência repleta de gente como Tolkien, Monteiro Lobato, Pedro Bandeira e Jack London. E foi com essa sensação nostálgica que fui ao cinema assistir a O Chamado da Floresta, baseado em um dos maiores clássicos da história da literatura da autoria de Jack London, um sujeito que, ao contrário da maior parte dos escritores – daquela época e de qualquer outra -, vivera uma vida de privações, tendo trabalhado como marujo e garimpeiro, duas profissões com índices de mortalidade altíssimos. Por causa dessas experiências, London escreveu alguns grandes clássicos da literatura, mas dois deles se destacam pela pureza e crueza da história contada. São eles esse “O Chamado da Floresta” e “Caninos Brancos”, duas obras sobre a relação do homem com a natureza contadas pela perspectiva de cachorros. São histórias atemporais, que trazem lições para crianças e adultos com a mesma força e que, não por acaso, já foram adaptadas ao Cinema inúmeras vezes.

Se “Caninos Brancos”, escrito depois de “O Chamado da Floresta”, conta a história de um lobo que é lentamente domesticado, mas sem jamais perder sua ligação perene com a natureza, este o Chamado da Floresta é o contrário, contando a história de Buck, um cachorro gigante que é uma mistura de São Bernardo com um Collie (algo como se o Beethoven cruzasse com a Lassie), fazendo justamente o caminho inverso, saindo de suas origens como um cão domesticado e amado e se tornando cada vez mais selvagem, atendendo ao tal chamado da floresta do título.

Apesar de tomar várias liberdades com a história original, esta versão de O Chamado da Floresta segue fiel ao original em seu cerne, buscando mostrar que a essência de todo ser humano é estar em comunhão com a natureza, uma corrente de pensamento um tanto ingênua, mas que mesmo assim soa como verdade absoluta em quase todos que, como eu, são seres urbanos, de certa ganância e que buscam no sucesso profissional ou no acúmulo de riqueza alguma nesga de propósito sob o disfarce muitas vezes falsamente abnegado de que fazemos pelo bem de quem amamos. Somos animais e, como tal, sentimos uma falta atávica desse contato com a natureza, falta essa que, considerando que se trata de um livro lançado em 1903, existe desde sempre e é o que torna esse conto tão atemporal.

London trabalhou por um ano na corrida do ouro de Klondike no ártico extremo norte do Canadá. Essa sua experiência foi vital para contar a história do cachorro que sai de um casa rica na ensolarada Califórnia onde era amado e bem cuidado e, por ser grande e forte, é raptado por facínoras para ser vendido e usado enquanto puxador de trenó naquela região. Buck aprende, então, o poder do porrete, passa a temer os seres humanos, mas mantém sempre a ternura de quem foi criado com muito amor.

Temos aqui um filme que tem uma proposta muito clara e a cumpre perfeitamente. A intenção é mostrar um personagem – Buck – indo do ponto A – a “civilização” – ao ponto B – a natureza – numa jornada de autodescobrimento que vem para divertir e dar lições de vida talvez um pouco bobas pra um adulto, mas que certamente serão perfeitamente compreendidas por mentes menos bombardeadas pelas agruras e vicissitudes da vida moderna.

Para tanto, o diretor Chris Sanders, de excelentes animações como “Como Treinar Seu Dragão”, faz sua estreia contando com um dos maiores diretores de fotografia da atualidade, o excelente e oscarizado (por “A Lista Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”) polonês Janusz Kaminski. E não se trata aqui de apenas saber filmar as muitas auroras boreais ou as paisagens monumentais, selvagens e intocadas do norte canadense, mas também um certo virtuosismo para fazer com que os efeitos especiais apareçam de forma convincente no filme. Isso porque Buck (e praticamente todos os outros animais) é todo feito digitalmente, com expressões antropomorfizadas, mais ou menos como fizeram em “O Rei Leão“.

Aqui Buck mostra suas emoções de forma inequívoca, como eu ou você mostraríamos, mas essa antropomorfização de um animal que todos nós conhecemos e temos contato quase cotidiano incomoda bastante no começo do filme talvez porque nós saibamos como um cachorro reagiria a determinada situação, então fica uma sensação esquisita, de que talvez haja alguma coisa de errado com aquele bicho. Felizmente, o estranhamento dura pouco.

Além dos efeitos especiais que causam um estranhamento inicial, temos também um roteiro bobo, que tem uma necessidade de criar e dar destaque a vilões que a história simplesmente não pede, numa tentativa de tornar tudo ainda mais palatável ao espectador. Um deles, o humano interpretado pelo bom Dan Stevens, é uma coisa caricata e lamentável demais, mas acredito que esse tipo de escolha funcione bem com as crianças.

No geral, temos aqui uma produção competente, um “filme de au-au” (como diz uma pessoa muito especial na minha vida) que vem pra cumprir seu papel, que diverte, emociona e que ainda nos dá de lambuja os sempre carismáticos e competentes Omar Sy e Harrison Ford em papeis de destaque. Entrei na sessão sem expectativas e saí dela com os olhos inchados e o coração leve. Qualquer filme que faz isso com alguém que leu “O Príncipe” aos 11 anos e perdeu a fé na humanidade tão cedo tá sabendo legal fazer o que se propõe.

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