Essa semana, uma leitora nossa (beijo para ela e obrigado pelos comentários) reclamou sobre a falta de originalidade de certas obras. Disse que quando há outras com tramas similares, a criatividade – que é o que ela mais preza – fica prejudicada e, por consequência, seu interesse pela peça diminui. Concordo muito que tem havido uma absurda falta de criatividade no tocante ao Cinema (e isso não vem de hoje); no entanto, é notável que toda e qualquer história que você pensar ou imaginar já foi antes contada. Dessa forma, o que nos permite continuar a acompanhar horas e horas de “novos” contos é em como ele nos é narrado. Partindo de uma sinopse muito – mas muito – parecida com “Chamada de Emergência” (com Halle Berry), o novo filme dinamarquês, O Culpado, chega aos cinemas do Brasil.

Asger Holm (em bela performance por Jakob Cedergren) é um policial sendo processado internamente por um episódio no qual se envolveu trabalhando nas ruas. Enquanto as audiências ocorrem, ele é afastado e colocado no atendimento telefônico de emergências. De acidentes com bicicletas a assaltos e sequestros, ele é o homem que recebe o primeiro contato e tem o trabalho de encaminhar as informações para que os patrulheiros consigam resolver o caso o quanto antes. Nesse “castigo”, que se pretende temporário, Asger se depara com uma ligação e um possível sequestro. Trata-se de um ex-marido levando a mulher e deixando os dois filhos pequenos em casa. Querendo atuar de maneira precisa, o policial punido monta sua própria rede de informações, ora falando com a vítima, com o meliante, ora com uma das crianças. Cada passo tem que ser o suficiente para que ele consiga solucionar o problema.

A busca pela redenção.

Inteiramente passado em duas salas da central de emergência dinamarquesa, o filme se torna um thriller muito bem dirigido, que consegue a partir das cenas, todas regidas por Jakob Cedergren, manter um nível de tensão, prendendo seu espectador nos dois conflitos apresentados: o drama pessoal de Asger e a tentativa de recuperar a possível vítima de um ex-marido violento. Tal qual “Locke” (já homenageado em nosso Garimpo), que tem em Tom Hardy a única fonte visual (e que fonte, amigo!) para um filme que se passa todo dentro de um carro com o personagem falando ao telefone, O Culpado segue a mesma linha. Aqueles dois cômodos são o universo de Asger e o telefone seu recurso para conseguir fazer valer a força policial em seu instintivo “proteger e servir”.

Mas essa espiral de thriller que vai envolvendo o espectador a cada ligação, a cada informação, que vai unindo o quebra-cabeças lançado a partir de falas soltas dos envolvidos, revela turning-points supreendentes, que podem mudar o escopo do que estávamos a contemplar. Como cobras que surgem sorrateiras prontas ao bote, assim é o ser humano, que vive balançando no fio de uma corda bamba, ora tendendo para o divino, ora para o infame. A dicotomia trazida por cada um de nós é o mais marcante da breve 1h25 de filme e isso é percebido em cada um dos personagens que nos são apresentados ao longo da narrativa. Em especial, na pele de Asger – o policial que fizera algo errado e que tenta buscar sua redenção própria tentando de tudo para salvar pessoas da ameaça de outrem ou de si mesmas.

O sibilar da serpente.

O diretor Gustav Möller mantém o filme de maneira firme em suas rédeas, conseguindo promover a tensão que não para um minuto sequer e aprofundando seu passeio na natureza selvagem do ser humano. Em um mundo de pecados, ninguém é inocente. Mas quase todos caminham na sua incessante busca pela redenção. No cair da noite, você deverá se perguntar se passou por aquele dia isento ou se sibilou em demasiado, à imagem e semelhança das serpentes.

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