Jackie Chan é uma dessas eminências pardas do show business. Você pode nunca ter visto um filme dele ou odiar seu trabalho, mas ele é um sujeito tão amável, com um jeitão de ser tão gente boa, que é verdadeiramente impossível sentir qualquer coisa por ele que não afeto e admiração.

Conhecido por não usar dublê em boa parte de suas cenas de seus mais de 130 filmes, todos praticamente aliando artes-marciais e muita comédia pastelão, Chan geralmente se mantém nessa zona de conforto. Até mesmo porque ninguém faz o que ele faz com sua competência e graça, mesmo aos 63 anos. Aqui, contudo, ele tenta algo completamente diferente e consegue demonstrar, quem diria, que ele, ainda que seja um performer em primeiro lugar, é também um bom ator, mesmo sem deixar de chutar bundas e fazer suas acrobacias.

Aqui, Chan interpreta Quan, um imigrante sessentão dono de um restaurante chinês em Londres e pai de Fan (Katie Leung). Ao levar sua filha para comprar uma roupa especial para a formatura, eles são vítimas de um atentado a bomba feito por um grupo separatista da Irlanda do Norte. Fan morre e com ela morre qualquer possibilidade de Quan dar um sorriso até o final do filme, nascendo em Jackie Chan um ator com surpreendentes nuances dramáticas, o que já é imediatamente perceptível na cena seguinte em que ele chora copiosamente agarrado ao corpo sem vida de sua filha.

A partir da morte de Fan, somos apresentados àquele arquétipo que os filmes de ação adoram e que, puta que o pariu, é um clichê que funciona muito bem. O do homem que não tem nada a perder. Quan, tendo sido extirpada de sua vida a última coisa que lhe restava de boa, agora só quer saber de descobrir os nomes dos responsáveis pelo atentado.

Roose Bolton, James Bond e Cabeça-de-Ovo.

Paralelamente a isso, o atentado tem repercussões políticas óbvias para a situação frágil dos Acordos de Paz entre o governo britânico e os separatistas norte-irlandeses. Mais do que fazer o feijão com arroz de um filme de ação e usar a questão política como apenas um pano de fundo superficial,  o roteiro de David Marconi baseado no livro de Stephen Leather coloca a intriga política lado a lado com a ação, de forma bem executada e crível, já que a politicagem aqui se dá entre ex-guerrilheiros que hoje ocupam cargos no governo.

O principal deles e fio condutor deste núcleo da história é Liam Henessy (Pierce Brosnan). Outrora conhecido como o Açougueiro de Ulster, ele agora é o vice primeiro-ministro da Irlanda do Norte e, devido ao seu histórico separatista, é tido como a única esperança do governo inglês para descobrir quem são os responsáveis pelo atentado.

Temos aqui então um filme de Jackie Chan sem qualquer tom cômico e com poucas, apesar de excelentes e intensas, cenas de ação. Tudo para dar errado, certo? Certo, mas Chan entrega uma performance sólida, com nuances que nunca se esperariam dele como, por exemplo, mudar um pouco seu sotaque de chinês radicado nos EUA para o de chinês radicado na Inglaterra, e isto tudo enquanto continua fazendo o que sempre fez de bom. A competente direção de Martin Campbell, que consegue construir a tensão do filme para seu clímax ao final, também ajuda bastante.

O Estrangeiro é, a despeito de algumas liberdades que o roteiro parece tomar com a realidade (Quan consegue facilmente falar ao telefone e pessoalmente com o vice-ministro e com o chefe da força-tareta anti-terror de Londres, por exemplo), um thriller político de ação muito bem engendrado, cumpridor do que se propõe e que surpreende, não em pouca medida por causa de Chan e de seu talento para, aparentemente, fazer qualquer coisa.

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